A Tua Vontade é a Tua Vitória

31.10.08

A Sorte Protege os Audazes



O meu distintivo


Audaces Fortuna Juvat

  Grito de Guerra: "Mama Sumae" - "Aqui Estamos, Prontos Para o Sacrifício!".

Grito do bailundo (Homem de uma tribo BANTO do sul do Continente Africano) armado de lança contra o leão no ritual de passagem da adolescência à maturidade.


EAMA – Nova Lisboa

  À voz do capitão a companhia formou numa ala perto do campo de obstáculos. Alguns soldados, com o uniforme camuflado colado ao corpo e de boina com o distintivos dos Comandos, aproximaram-se de nós. Vinham com o fito de escolher quem lhes parecesse que daria um bom Comando. Por azar encontrava-me em cima de uma pequena elevação parecendo ser mais alto do que na realidade o era. Ao aperceber-me disso inclino o corpo prá frente. Com a companhia alinhada, o capitão dos Comandos ia mandando sair da fila os que lhes pareciam ser mais capazes. Passa por mim e nada. Com um suspiro de alívio endireito o corpo, aí ele volta para trás e apontando o dedo para mim diz: «Tu também».

Centro Instrução de Comandos - Luanda

Depois de passar nos testes feitos na EAMA eis que regresso a Luanda para o CIC no Cazenga, a fim de fazer os treinos que me fariam Comando ou, caso não os conseguisse suplantar, voltaria para a tropa normal.

Na recepção tivemos logo uma palestra sobre a Instrução que iríamos receber.

... E não te esqueças que as exigências feitas não são obrigações que cumpres, mas a afirmação permanente da tua vontade, do eu querer e do teu desejo de ser um “COMANDO”. Porque tu queres ser “COMANDO”! E nós queremos-te entre nós!!

  E eu queria ser um entre eles.

  Formaram-se os grupos. Já não me lembro quem era o Alferes que nos deu a instrução mas lembro-me do Furriel.

Furriel Lima, meu camarada, que tombaste em terras de Cabinda para ti a minha homenagem.

  O treino era duro, mas duros éramos nós e: «O COMANDO não foge ao perigo, não evita as situações que possam acarretar-lhe incómodos. Incumbido de uma missão, põe no cumprimento dela todas as suas possibilidades de actuação, todas as suas forças físicas, intelectuais e morais.»

  De várias provas lembro-me bem da semana maluca e do Capitão Robles, que simulado um ataque no meio do mato, caiu em cima do Unimog como tivesse sido atingido e era ver aquele grupo de jovens prontos para tudo.

  A semana maluca consistia em fazer de noite o mesmo como se fosse de dia.

  Na prova de choque (prova da sede), fazíamos a barba com o orvalho das tendas pois só tínhamos um cantil de água por dia. À noite rastejávamos até aos tanques de água e pingo a pingo voltávamos a encher os cantis, para assim colmatar alguma necessidades de hidratação.

  Um dos meus camaradas que tinha vindo comigo de N. Lisboa foi mordido por um insecto e o corpo ficou todo inchado. Mas se havia homem que queria ser Comando ele era um deles. Assim durante um certo período o grupo ia-o ajudando no que podia para ele não ser enviado para Luanda o que seria o fim do seu sonho, mas o corpo não aguentou e um helicóptero levou-o para o hospital militar.

  Os treinos eram intensos, quando chegava a altura do “rancho” ficávamos alinhadinhos ali junto às mesas enquanto o “Donne Moi Ma Chance» (música “oficial” dos Comandos) tocava e depois lá vinha mais uma palestra sobre o que é ser «Comando» e a barriga a dar horas.

  Há uma música que já não sei o nome, que ainda hoje, quando corro, mentalmente a toco e assim compasso a minha passada de corrida.

  Um dia numa «queda na máscara» escorrego numa pedra solta, e bato com a clavícula na coronha da arma. Fractura da mesma, Hospital Militar e assim tudo se acabou.

  Os grupos formaram a 2044ª Companhia de Comandos, quando receberam o crachá eu já lá não estava.

2044ª Companhia Comandos - Luanda





 Neste mundo de egoísmo, de traições e de mentiras, há um outro lado de amor, de amizade e de verdades.

 Ao escrever sobre a minha vida militar não quero dizer com isso que sou apologista da guerra. Não gosto da guerra que destroça milhões de pessoas e só servem o interesse dos vendedores de armas, do petróleo, ou de quem queira uma possessão de terreno (País) tal e qual como qualquer animal dito irracional o faz.

 Quando fomos chamados para a vida militar, naquela época, era por obrigatoriedade, quem não fosse sujeitava-se a ser penalizado por isso. Mas foi lá que se fizeram grandes amizades. Ainda hoje passa em rodapé nas TV´s ou nos jornais, que companhia tal vai ter um almoço de confraternização em qualquer lugar deste país.

 Nunca fui a nenhum. Uma porque quando estive nos Comandos nunca o cheguei a ser devido à tal queda que me fracturou o ombro. Outra, nos “Gorilas do Maiombe” a minha companhia era de rendição individual por isso nunca houve grandes motivos para reunir já que andávamos sempre a substituir e a sermos substituídos, ou seja, nunca estive numa companhia do principio ao fim com os mesmos camaradas.

 Por isso os rostos esfumam-se na vereda do tempo, contactos pessoais nunca houve e assim se passaram anos e anos, até que!...

 Um dia resolvi escrever. Escrever aquilo que penso, notas da minha vida, sem o intuito de agradar seja a quem for senão a mim.

 E voltei ao passado, não a um passado saudosista, que aquilo é que era bom e agora nada presta. Cada coisa no seu tempo!

 Sempre pensei que, caso fosse Comando, pertenceria à 33ª Companhia. Meteu-se-me na cabeça que era e ponto final. Só que passado estes anos de contacto em contacto, verifiquei que assim não era. Aqui é que se vê o que une quem lá esteve naquela guerra. Mesmo não tendo sido Comando, vários Comandos entraram em contacto comigo para a pouco e pouco ir eliminando as Companhias que se formaram até à altura que entrei para o CIC. Fiz vários contactos e hoje a certeza absoluta que seria da 2044ª do 27º Curso que decorreu entre Junho e Outubro de 1973.

 Assim ao som da música da «Ballad of the green beret», Hino Oficial dos Comandos, agradeço a todos os que entraram em contacto comigo, especialmente ao Armindo Ferreira da 33ª (sem ele não teria sido possível saber nada de nada), ao Brito da 2046ª, ao Carlos Sousa, Aníbal Lopes e ao Rosa da 2044ª toda a ajuda prestada.

 Para todos o meu MAMA SUMAE e aqui fica a letra da canção que tão bem a conheceis.

Hino “Comando”

Somos jovens e audazes,
Palmilhando matas sem fim,
E mostramos ser capazes
De lutar até ao fim.

Aprendemos a ser duros,
A lutar até morrer,
E mostramos ser seguros
Não faltando ao dever.

Ao perigo indiferentes,
E na guerra destemidos,
Nunca largamos as frentes
Perseguindo o inimigo.

Esta é a voz do COMANDO,
Que de regresso cantamos,
E bem alto vamos gritando
MAMA SUMAE, AQUI ESTAMOS


Só quem lá esteve é que sabe dar o valor a isto!

Link para a 2044ª

Comandos 44ª

Mama Sumae



  Há músicas que nos marcam. Músicas que deixamos de ouvir durante muitos anos mas ficam cá dentro fazendo parte de nós e a trauteamos em muitas ocasiões.

  O mesmo se passou com a música que abre este tema. Não sabia o nome dela, sabia sim que, durante muitos anos, quando de novo voltei às corridas (tinha feito atletismo no Benfica de Luanda) compassava os meus passos ao som da música que na minha mente tocava.



Centro de Instrução de Comandos - 1973

  Já aqui contei algumas situações no tema "A Sorte Protege os Audazes" em que tinha como fundo musical o «Donne Moi Ma Chance» (música “oficial” dos Comandos).

  A instrução era dada com fogo real. Lembro-me de a um furriel lhe ter rebentado um detonador na mão pois o detonador era da granada instantânea só que tinha a patilha correspondente à granada de sete segundos (esta patilha era colocada para armadilhas em picadas). Ao começar a contagem dos sete segundos, largou a patilha e o detonador rebentou-lhe na mão. A sorte é que, no meio do azar (esta é à portuguesa), ele só tinha o detonador e não a granada senão lá ia o instrutor e instruendos para a morte ou ficavam com lesões graves para toda a vida.

  Mas era a vida de militar, prontos para o melhor e para o pior. Embora odeie a guerra que só interessa a quem dela vive, estava pronto para fazer face a qualquer ataque pois ali não há escolhas, ou se mata ou se morre.

  Na altura havia uma piada com uma certa graça com o «ou mato ou morro». Então dizia-se: «Quando se vir o inimigo no mato vai-se pró morro, se estiver no morro vai-se pró mato»
Ou esta:
«Se detectarmos o inimigo damos meia volta e progredimos nas horas do car....».

  Claro que isto era só piada pois a realidade era bem diferente, quando os ataques aconteciam não dava tempo nem pró mato nem pró morro.

  A qualquer hora da noite podíamos ser chamados para formar na parada ou ter instrução nocturna. Quando havia zunzum que isso podia acontecer, deitávamos fardados pois tínhamos pouco tempo para nos vestir e aparecer na parada, quase sempre “pagávamos”, ou seja tínhamos que “encher”, que não mais era do que flexões.

  Como os instrutores já tinham passado pelo mesmo, estávamos nós deitados com o camuflado, eles entravam na camarata a fazer um chinfrim e a bater nos ferros dos beliches e diziam que tínhamos de estar na parada com traje de... passeio ou de trabalho! Lá se ia a nossa esperteza de estar com o camuflado vestido.

  Havia uma instrução também de competição, saber quem aguentava com os braços estendidos a arma segura pelas mãos. Inicialmente tudo bem mas com o passar dos minutos a arma começava a pesar “quilos”. Um a um lá iam baixando os braços havendo sempre quem tentava a todo o custo ser o vencedor mesmo que para isso tivesse que torcer todo o corpo.

  As corridas ao som da música, o conhecer as armas em todos os pormenores, a manutenção (por mais que a limpássemos quando o instrutor olhava para o cano estava sempre um "morro" de areia dentro dele e claro lá tínhamos umas flexões a fazer), o gosto que tínhamos na postura (mandei ajustar toda a minha roupa da tropa) fazia do «Comando» um ser diferente.

  A minha passagem pelos Comandos foi tão marcante que, estando eu nos Adidos à espera de embarque depois de ter vindo de Cabinda para tirar um curso em Luanda, ao apresentar o meu grupo ao Comandante dei um passo à frente que fez com que Comandante chegasse ao meu ouvido e perguntasse:

- O nosso Furriel esteve nos «Comandos»? - Estive sim meu Comandante - Então prá próxima dê um passo em frente à tropa normal (ele disse macaca) que isto aqui não são os «Comandos».

  Até aquele Comandante sabia bem o que era um passo em frente à Comando.

 
Num momento de boa disposição (reparem no punho fechado) - Aqui é só estilo


Em cima: Ferreira, Pinto, Reis, eu e Graça Lopes. Em baixo: "Dega", Folgado e Franco (foi comigo para Cabinda)


Mais uma foto do grupo com a inclusão do soldado Baltazar

 
Eu no CIC e a minha divisa de Cabo-Miliciano


Obrigado Ferreira pela indicação da música que já não ouvia há muito tempo.