A Tua Vontade é a Tua Vitória

26.5.17

A Perseguição

O quartel em Miconge, junto à fronteira do Congo Brazaville, tinha sido atacado à morteirada. Corre a tropa para as valas de abrigo. Cai uma granada de morteiro numa delas, atingindo mortalmente o cozinheiro que ali procurava a segurança que, infelizmente, lhe faltou.

O relato seguinte é que ao avanço do IN um furriel com uma metralhadora impedira que o quartel fosse tomado.

Falou-se depois de um rodízio de companhias que estavam em Cabinda, Miconge era a zona mais sacrificada pelo ataque do IN.

Seria a nossa companhia a seguir para essa zona, o que não veio a acontecer pois deu-se... o 25 de abril.

Estávamos todos em stress. Embora do lado do Congo Kinshasa, fomos informados que poderia haver um ataque a qualquer momento.

Tinham sido avistados grupos de indivíduos em aldeias perto do Congo do Mobutu. O meu grupo de combate tinha que partir para essa zona.

Devido às características de uma floresta virgem, tinha que ser em grupos e não a companhia a deslocar-se para a zona de possível contingência de ataque.

Inicialmente vamos de Unimog e depois somos entregues à nossa sorte.

O grupo divide-se em dois pela picada. Olhos e ouvidos atentos. A cada restolhar vindo da floresta, um calafrio percorria-nos. O que seria aquilo? Alguma cobra, animal, ou...

A noite cai. Monta-se guarda. Partiríamos no dia seguinte. Rações de reserva, nada de lume, nada de sons, tudo em silêncio.

Os turnos vão-se revezando durante a noite. O dia nasce, seguimos caminho. Quilómetros percorridos e eis que surge à nossa frente uma aldeia. Todo o grupo esconde-se tentando perceber onde estávamos. Ouvimos as vozes dos aldeões. Estávamos no Congo.

Retirámos com os cuidados necessários, para não notarem a nossa presença.

Dirigimo-nos para uma das aldeia onde tinha sido referenciado a presença dos tais indivíduos. Chamou-se o soba, o responsável da aldeia, que nos informou que essas pessoas não mais eram que congoleses que vinham vender ou trocar produtos e artesanato de lado de lá com os fiotes (naturais de Cabinda).

Ficámos aliviados pela informação dada. Afinal não era o IN mas simples aldeões que contrabandeavam com os locais.

Iríamos permanecer naquele dia na aldeia, no dia seguinte regressaríamos ao quartel.

Foto: a nossa messe, habitação e casa de banho. Tudo em madeira e virado para a entrada do quartel. O meu quarto era o primeiro da direita, onde está a lavadeira com o filhote. Na janela tinha uma HK21 com o pente de balas montado, para qualquer eventualidade.

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