A Tua Vontade é a Tua Vitória

20.8.18

Filhos de Branco - Sexo na Esteira

Dormir na esteira é tipicamente africano. Quando os "defensores de causas" se referem ao facto do africano dormir na esteira e o caucasiano dormir numa cama e veem nisso motivo discriminatório, é porque não percebem nada das culturas dos povos. É como compararem uma cubata feita de folhas, palha, coberta de barro de uma aldeia africana, e as casas de cimento de uma aldeia caucasiana.

Quando ia de patrulha levava também a minha esteira. Três/quatro dias na floresta do Maiombe, à noite deitava-me debaixo dos cafeeiros, de uma árvore de grande porte, estendia a esteira, colocava o poncho (impermeável) por cima, fazia do saco, que transportava as rações de reserva, o meu travesseiro e ali dormia, muitas vezes enregelado e a chover.

As casas da aldeia onde estive na tropa, eram quase todas típicas. Aqui e ali, viam-se algumas em cimento mas a maioria não.

Assim era o local onde dormiam. Umas já tinham camas com colchão de palha, mas a maioria dormia na esteira.

O chão era de terra. As lavadeiras era ali que recebiam os seus companheiros para mais um momento de sexo.

Nessa noite estava de piquete como sargento de guarda. Tinha como missão percorrer o quartel e, com palavras passe, saber se as sentinelas estavam em alerta ou dormiam.

Antes da porta de armas encerrar, lá iam alguns tropas até a aldeia, para mais uma noite passada na esteira.

Aquele furriel tinha chegado há pouco ao quartel. Lá arranjou uma lavadeira e era essa a primeira noite que ia passar com ela.

Sentado na cadeira em frente à messe dos sargentos, olhava para aquele céu estrelado. O gerador já há muito que tinha deixado de funcionar. Esse gerador também fornecia energia à aldeia. O silêncio era absoluto.

De repente ouço alguém chamar-me: «Lima, vem aqui». A voz vinha da porta de armas.

Quando lá cheguei, com as cautelas devidas, era o nosso furriel que regressava da aldeia. Estranhei pois, não era costume aparecer alguém àquela hora e ainda por cima ele que ia fazer o seu batismo na esteira.

- «Já de regresso»?

E então contou-me ele.

- «Sabes, deitei-me na esteira mais a lavadeira, eh pá, depois de uma primeira vez, ela ainda não satisfeita, enroscou-se de novo e eu, embora já cansado, lá consegui. O pior foi depois. Estava já quase a dormir, quando comecei a sentir algo a subir pelo corpo e comecei a ter uma tremenda comichão. Eram bichos que faziam do meu corpo o seu pasto. Era tanta a bicharada, que eu até pensava que podia vir algum lacrau que me mordesse e ali ficava.»

- «E a lavadeira?!» - perguntei eu.

- «Essa dormia e bem. Deve estar habituada e nem conta estava a dar da bicharada. Então levantei-me e ela acordou. Onde vais? perguntou-me. Vou para o quartel. Não consigo dormir com estes bichos todos por cima de mim»

E assim fez. E às tantas, eu, perdido no silêncio da noite, ouvia o meu camarada de armas a contar-me a história da sua primeira noite passada numa esteira.

A meu lado, o cão que me acompanhava nas rondas, dormia.

foto de Ademar Campos - fazendo uma esteira


Filhos de Branco - Abandonada

Inicialmente na zona onde estive, as lavadeiras eram poucas, haviam os "lavadeiros", moços que iam ao quartel buscar a roupa e depois de pronta entregavam-na. Quando lá cheguei, dezembro de 1973, já as lavadeiras estavam "instituídas" e não me lembro de ver rapazes a fazerem esse serviço. Andavam sim, junto às oficinas e nada mais.

Ali estavam então à minha frente, a minha lavadeira e a lavadeira grávida. Um pouco acanhadas em falar comigo, estranhei o facto, pois as conversas eram normalíssimas, o entregar a roupa, verificar se as mesmas estavam todas, o pagamento da tarefa e pouco ou nada mais.

A mais velha, depois de algum silêncio, lá me disse o que se passava. Até hoje estou por saber a razão porque fui escolhido para essa tarefa. Dava-me muito bem com os locais. Ia muitas vezes até à povoação, inteirava-me dos seus usos e costumes, assistia ao "tchikumbi" e era convidado para algumas festas. O fiote é por norma, um povo simpático, afável e de bom trato. Ia caçar quando estava disposto a isso, pastorava quem tinha rebanho e o resto do tempo era passado em franco convívio com os seus amigos.

A minha lavadeira explicou que a sua amiga estava grávida de um alferes lá do quartel, que depois de saber que ela estava grávida, tinha deixado de aparecer e ela tinha deixado de ser a lavadeira dele.

Pediram-me para interceder, de forma a que ele voltasse de novo para ela e pudesse participar nas despesas quando, no futuro, o filho que estava a ser gerado, viesse ao mundo.

De nada valeu a minha alocução junto ao alferes (que já não me lembro quem era) e, pouco tempo depois, devido a minha companhia ser de rendição individual, esse alferes foi-se embora.

A criança iria nascer nua.

P.S. - O sentido aqui é figurado, pois todos nós nascemos nus, mas depois do nascimento há sempre uma roupa que nos tapa. O alferes ao não assumir a paternidade, e isto tem a ver com o facto que todas as que se relacionavam com um tropa e embora tivessem mais roupa para lavar de outros tropas, eram fieis a esse companheiro até ele se ir embora, e ao não participar na evolução e nascimento do filho, o mesmo não teria, quando nascesse, roupa para o tapar.

foto: Fernando Correia

13.8.18

Filhos de Branco - Em tempo de guerra...

"Em tempo de guerra, não se limpam armas."

As lavadeiras que se relacionavam com tropas, embora não fossem colocadas à margem dentro da comunidade, não tinham outro parceiro senão o tropa com quem, além de lhes lavar a roupa, davam favores sexuais.

Elas não se importavam, pois sempre era melhor assim. Não tinham que ir buscar lenha e tratar da horta caseira, para o seu homem que, por sua vez, tinha mais que uma mulher para garantir que em casa nada lhe faltasse, pois exceto um caso ou outro, viviam à sombra da palmeira de onde o maruvo era extraído.

Quase todos os tropas tinham na sua lavadeira a sua companheira de esteira. Era melhor do que ir à grande cidade e terem relações com as prostitutas que lá haviam, pois eram um ninho de doença, devido à falta de higiene tanto deles como delas. E depois eram as doenças venéreas que iam à custa de penicilina de um milhão de unidades, e quando a doença se propagava, eram obrigados ao "descasque da banana" ou ficavam com sífilis. Em tempo de guerra não havia muitas vezes tempo de se limpar a "arma" e dava nisso.

Quando as cabindesas tinham filhos e devido a ter que o levar às costas seguro naquele pano típico, com um pau, iam elas aos poucos forçando a mama (quase sempre a da direita) para que atingisse o comprimento suficiente para quando o rebento tivesse fome, pudesse, nas suas costas, pegar na mama da mãe e sorver o leite da vida, enquanto elas amanhavam a terra ou apanhavam lenha. Estranhei e muito esse facto. A mama esquerda sem grande alteração, para que o filho mamasse quando estivesse ao colo, e a outra comprida para quando ele estivesse nas costas.

E era vê-las estrada fora, com grande quantidade de lenha dentro da cesta, segura pela cabeça.


P.S. - Na família cabinda, a principal figura é a mãe, pois é ela que trabalha a terra - fonte básica de sustento da família, e gera os filhos que aumentam o poder do clã. As filhas são a base da continuidade e propagação do grupo e base da sustentação deste pelo amanho da terra. O homem dedica-se à caça, ao derrube de árvores de maior porte e à guerra. O Cabinda considera a actividade agrícola aberrante da sua dignidade.


7.8.18

Filhos de Branco - As Lavadeiras

A vida no quartel decorria normalmente. Na aldeia, as cabindesas iam para a floresta buscar mais toros para a fogueira que faziam em casa ou tratar da pequena horta sustento do lar. Os homens, na sua maioria, não faziam nada. Sentavam-se à soleira da porta, iam ter com os amigos à tabanca ou bebiam o maruvo, seiva extraída da palmeira que depois de fermentada, tinha um grande valor alcoólico.

Muitas delas eram nossas lavadeiras. Levavam e lavavam a nossa roupa no rio Chiloango e depois de entregue, eram pagas pelo serviço prestado. Só que muitas não eram só lavadeiras, eram também companheiras de alguns tropas, fossem eles alferes, sargentos ou simples praças.

Naturalmente que ser de alferes ou sargentos, lhes dava maior garantia de sobrevivência, sim que aquilo era uma forma de sobreviver e não de amor. Saía uma Companhia, entrava outra e, para elas, vai-se um "amor" vem outro. O importante era que tanto o lavar de roupa, como o ser-se companheira de noites passadas na esteira, lhes desse para alimentar os rebentos.

Ela, uma linda cabindesa, ali estava à minha frente. Não era a minha lavadeira, a minha era mais velha. A sua barriga dilatada, denunciava uma gravidez. Vim a saber de quem era o filho que ali estava a ser gerado.

6.4.18

Caminhos da Vida

Em terra do planalto do Huambo andei
Lisboa que era Nova e não a da Europa
Jovem à EAMA em camioneta demandei
Em janeiro enverguei a farda, fui lá tropa.

E aquele ar sereno das noites que ali sentia
Faz parte da minha alma e da minha poesia.

foto: estufa fria - Nova Lisboa - 1973