A Tua Vontade é a Tua Vitória

31.7.19

A caminho de Tando Zinze

12 de dezembro de 1973

As chamas dos poços de petróleo no mar, iluminavam a cidade quando cheguei. A areia da praia era negra devido ao derrame que sempre havia desses poços. Cidade pequena, muito pacata, depois de certa hora não se via vivalma. Nesse dia fui até ao cinema Chiloango ver o filme "A última cruzada" (não confundir com "a Última cruzada" com o Indiana Jones de 1989). Pouco mais de uma dúzia de pessoas assistiam ao filme.

Duas da manhã. Enquanto me desloco para os meus aposentes no B.Caç.11, os camaradas que tinham vindo comigo na lancha "Alabarda", vão deambulando pela cidade em busca do calor da noite.

Dia 13, quinta-feira. Em MVL (Movimento Viaturas Logístico) vejo pela primeira vez, as árvores altivas, de grande porte, da floresta do Maiombe. Devido a fatores climáticos que a floresta provoca, a chuva era uma constante. Durante quatro dias choveu sempre. Tando Zinze era o quartel a que estava destinado a cumprir a minha comissão. Neste lugar ermo, com a aldeia Tchinguinguili por perto onde as mulheres trajavam os famosos panos de Cabinda, iria ficar durante um ano e alguns meses.

Enquanto não comecei a fazer patrulhas e numa de habituação ao novo local e aos camaradas, o jogar às cartas, ao dominó e à bola, era uma forma de passar o tempo, pois o que lá tínhamos a mais era tempo. Nunca tive um calendário. Se o tivesse iria passar o tempo a olhar para os dias e o importante ali, era esquecer o tempo.

foto: jogando dominó na nossa messe de sargentos

autor: 2º sargento Maurício

14.3.19

O Acidente

A noite estava escuríssima junto à fronteira com o Congo Kinshasa. Tínhamos sido alertados para um acidente com uma nossa viatura. Saímos do quartel e, com as cautelas devidas, seguimos em direção à fronteira para verificar o que tinha acontecido e se havia mortos ou feridos pois a informação era escassa. Chegados ao local verificámos que uma Berliet se tinha-se virado e, para além da nossa tropa, também levava civis. Caíram todos e tanta sorte houve que, felizmente, só um soldado tinha desmaiado ao bater com a cabeça no chão e uma criança com uma luxação no braço.

Mas o azar não ficou por aqui. O moço que tinha visto o acidente, tinha comunicado o caso à tropa na sua motorizada. Eu sabendo disso, levei-lhe um 'jerrycan' com gasolina para lhe oferecer por ter feito esse favor. Como a gasolina por ali era escassa o rapaz ficou todo satisfeito. Mas a satisfação transformou-se em tristeza. Devido a candeia estar muito perto da gasolina, logo esta se incendiou e a motorizada ficou numa lástima.

A esta distância, não posso precisar, e eu no que escrevi não adianto mais nada sobre o assunto, se a motorizada foi arranjada no nosso quartel e devolvida ao dono em condições.

Nessa mesma noite estava de serviço. A longa noite esperava por mim. Dentro em pouco, os geradores iriam desligar. O quartel e a povoação de Tando Zinze, ficariam às escuras.

A meu lado um dos cães iria fazer-me companhia e acompanhar-me na ronda pelo quartel.

Eu, o silêncio e as estrelas, num dia igual a tantos outros, ali, junto à floresta do Maiombe.

22-07-1974

18.12.18

Tesourinhos...

Impressionante, ao fim de 44 anos, ainda tenho as faturas das compras que fiz na tropa em Cabinda, relativamente a um rádio giradisco (muito em voga na época) no valor de 4.500 escudos, uns auscultadores (1.350 escudos), comprados na Manjarona a 29/3/1974 e a 23/7/1974 respetivamente, uma aparelhagem "National Panasonic", no valor de 14.000 escudos em 23/7/1974, na Casa Americana Comercial, filial nº14 da Casa Americana de Luanda e um gravador (toca cassetes :) ) na Daniel e Oliveira, no valor de 4.300 escudos em 3/9/1974.

O rádio giradisco e o gravador já cumpriram a sua missão, os auscultadores velhinhos ainda os tenho, mas não uso, e a aparelhagem ainda toca e bem.

Em Cabinda não se pagava direitos aduaneiros e os preços eram mais em conta.

fotos: as faturas e eu num quarto em Cabinda (depois de ter saído de Tando Zinze, em dezembro de 1974), onde se pode ver os auscultadores, a aparelhagem e o gravador.

14.12.18

O quico

Hoje, "voltei" à floresta do Maiombe (Cabinda) no "meu" pinhal.

Quem sabe se há 43 anos atrás, no quartel em Tando Zinze, não estava também a olhar aquele "mar vegetal", com o quico na cabeça.

O tempo passa, mas as recordações ficam.

Tesourinhos...

(do fundo do baú)

Dia 11 de dezembro de 1973, vindo dos Comandos, embarquei em Luanda, já como Furriel Miliciano, na lancha "Alabarda", com destino a Cabinda.

Chego no dia 12 ao B.Caç11 e vou para o quartel em Tando Zinze no MVL (Movimento Viaturas Logístico) no dia 13. Já lá vão 45 anos

O que me resta desse tempo? Fotos, cartas, alguns postais e ao mexer no "baú", encontro o meu "Quico" com abas de grilo e a minha boina.

O resto do uniforme, a traça, durante a viagem Angola/Portugal, traçou-lhe o destino.

Passados todos estes anos reparei ao colocar a boina, que esta com o tempo encolheu, ou o meu crânio cresceu (não sei se o cérebro acompanhou o aumento craniano, mas penso que sim :) )