A Tua Vontade é a Tua Vitória

18.5.17

O "marufo"

Durante o tempo que permaneci no interior de Cabinda e tendo a floresta do Mayombe por companhia, no quartel (Tando-Zinze) poucas eram as alterações no dia-a-dia. Formaturas, destroçar, cada um ia às suas funções, grupos de combate saíam por vários dias para patrulhar a zona, a pé ou de Unimog, e assim se passavam os dias.

Umas idas até à aldeia faziam parte do nosso desentorpecimento, pois não havia mais nada. Ali bebi “marufo” ou “maluvo”, como era chamado, que não era mais que uma bebida resultante da seiva fermentada das palmeiras. Os locais davam cortes horizontais nas palmeiras e amarravam um utensílio em forma de cone (?) (quase sempre de alumínio) onde essa seiva caía. Depois de fermentada tínhamos uma bebida de grande valor alcoólico. Confesso que quando me deram para provar e ao ver tantos “bichos” dentro do recipiente, a minha vontade foi o de rejeitar, mas sabia que se o fizesse o gesto cairia mal pois os cabindenses só fazem isto a quem gostam Assim lá bebi aquela bebida e francamente não gostei. Mas se não o provasse não saberia se gostaria ou não, assim os meus anfitriões ficaram satisfeitos e eu também por lhes ter agradado a minha atitude.

foto: eu com um camarada de armas, natural de Cabinda. Tirada pelo 2º sargento, Maurício.

23.3.17

A linda cabindense

Estive um ano no quartel na aldeia de Tando-Zinze perdida no Maiombe. Bons e maus momentos passei por lá, mas valeu a pena. O contacto com as populações, coisas que nunca tinha visto: o batuque, danças à volta da fogueira, cabindenses muito bonitas e, em certos locais, uma beleza natural de cortar a respiração.

Um camarada meu, estava "enfeitiçado" por uma rapariga local. Era a mais linda de todas. Linhas de rosto fino, corpo esbelto, andar estonteante, cabelo longo e sedoso; uma Vénus nascida do ventre de OXUM, a mãe da água doce.

Um dia ia eu a passear com ele junto ao rio quando ouvimos vozes femininas. Fomos silenciosamente pelo caniçal, e o que vimos foi tremendo, estavam várias jovens a tomar banho, conforme tinham vindo ao mundo, numa pequena queda de água.

Aquelas peles cor de ébano brilhavam e, entre elas, estava essa rapariga. O meu camarada não conseguiu conter os impulsos. Começou a correr em direção a elas, em direção à sua deusa. As botas chapinhavam naquela água límpida, soltando pequenas gotas de água refulgentes pelo sol. Eu, assistia como um espetador que vê numa tela, a essência de um filme lindo e ao mesmo tempo surreal. Um camarada meu a correr, um rio a passar, a natureza a envolver-me e aquele cenário idílico de lindas raparigas tomando banho numa cascata.

Elas mal o viram, correram para o topo da queda de água e, com aqueles sorrisos lindos, pegaram na roupa e desapareceram na vegetação.

Tempos depois fomos chamados à povoação. Alguém estava muito mal devido a um aborto mal feito. Era a linda cabindense. Foi enviada de helicóptero para o Hospital de Cabinda.

Quando voltamos a vê-la, já não era a mesma. O rosto tinha perdido a beleza de outrora, lindo sim, mas não aquela beleza que a diferenciava. Perdeu ali a magia de uma mulher inatingível. Passou a ser uma mulher, igual a tantas outras.



Foto: tirada no interior da floresta junto ao rio mencionado.



20.3.17

Como o tempo passa...

Fez em janeiro, 43 anos que tirei esta foto, num quarto alugado em Cabinda, depois de ter vindo da mata do Maiombe.

27.6.16

42 anos depois

42 anos são passados desde a altura que tirei esta foto no interior desse mar vegetal de seu nome Maiombe.

"Quero que vejas como eu esta beleza!
Que se alguém já viu eu não sei onde!
São milagres que Deus fez na natureza!
As matas fumegantes do MAIOMBE…! "

Permaneci um ano, num quartel no interior de Cabinda, Tando Zinze.

Das suas cubatas, do sorriso das cabindenses, das noites de batuque, dos alambamentos, do marufo (bebida alcoólica fermentada da seiva da palmeira), das árvores com mais de 20 metros de altura, das picadas lamacentas (picada é um caminho estreito no mato) onde o sol nunca entrava, do malvado mosquito miruí que de tão pequeno era, que nos entrava pelo mosquiteiro e fazia do nosso sangue banquete.

Do malfadado paludismo que me ia quase mandando de "charola" para o hospital. Das festas que fazíamos sozinhos, lá longe onde o sol castiga mais, pelo natal e ano novo.

Das trovoadas que tudo estremecia, da chuva que caía, do dormir em patrulha, no nosso poncho camuflado, debaixo de uma árvore qualquer.

Dos sons dos gorilas, dos pássaros, do silêncio da morte, nunca esqueci

42 anos passados, como o tempo passa!

Cabinda oyé!

3.11.11

Tempos de Guerra

O nosso quartel situava-se numa zona perto da fronteira com o ‘Congo Kinshasa’. Uma zona onde nunca houve problemas de combate entre a nossa companhia e o inimigo, ao contrário do outro lado, em Miconge, esta fazendo fronteira com o Congo Brazzaville, que estava a ser sempre fustigada pela artilharia inimiga.

Quando não há motivos para precauções há tendência para facilitar. Não se tomam as providências necessárias em garantir a segurança e é ver-se situações que não podem acontecer em tempo de guerra.

A eletricidade do nosso quartel, era fornecida por geradores que também forneciam à aldeia próxima, Tando-Zinze. Como não havia gás para confecionar as refeições, era na floresta do Maiombe que íamos buscar lenha para alimentar a fogueira.

Organizava-se um grupo de soldados e, numa Berliet, lá se ia cortar a madeira necessária para abastecer o depósito de lenha. Tinha vindo dos ‘Comandos’, o rigor e disciplina era o nosso lema, não facilitar a nossa divisa. A qualquer momento podíamos ser atacados e tínhamos que estar preparados. Mas ali, na floresta do Maiombe, parecia que nada podia acontecer. Os soldados não tomavam as devidas precauções. Há que cortar e encher a Berliet com os toros de madeira para cima... das armas que ali tinham ficado.

Deixei-os encher. Quando vi que estava tudo na galhofa e prontos para seguirmos para o quartel apontei-lhes a minha G3 e disse: «Eu sou o inimigo, estão todos ‘mortos'». Olharam-me estupefactos. A minha arma estava em posição de rajada. Balbuciaram: - «Ó nosso furriel, deixe-se disso». Perguntei onde estavam as armas deles.

Claro que não foi necessário que mo dissessem. Estavam debaixo de dezenas de toros. E ali, em plena mata do Maiombe, perceberam a lição. Nunca na vida podemos facilitar, pois se em vez de mim fosse realmente o inimigo, estaríamos todos mortos.

As vezes seguintes que voltamos para apanhar lenha, enquanto uns cortavam, outros, em alerta e de G3 apontadas, montavam um perímetro de segurança prontos para qualquer eventualidade.

Na guerra, como na vida, nunca podemos colocar em perigo nem a nossa, nem a vida do nosso semelhante, porque o azar, de um momento para o outro, pode acontecer!

foto: a municiar um camarada no nosso campo de tiro, enquanto ele disparava com a HK21.