A Tua Vontade é a Tua Vitória

22.5.17

Patrulhando

G3 e sacos no Unimog prontos para mais uma patrulha e pelos sacos deveria ser por muitos dias. O Unimog levava-nos até um local determinado, regressava ao quartel e nós seguíamos rumo ao objectivo.

Nos sacos levávamos as rações de reserva para vários dias, o poncho (impermeável para nos proteger do frio e da chuva) e por vezes um saco cama.

Dormíamos onde calhava, até debaixo dos cafeeiros sujeitos a sermos mordidos por essa cobra venenosa, a mamba verde que se encontrava muito nesses locais.

E com chuva, com o terreno enlameado, com o perigo à espreita pois nunca se sabia se era a nossa vez de levar com o chumbo, lá íamos muitas vezes durante uma semana, por aquela floresta, até sermos recolhidos outra vez.

19.5.17

A chapa da morte

A minha identificação de morte, na guerra do "Ultramar".

Fio com uma chapa redonda, com o nosso nº de identificação militar (nº mecanográfico). Chapa picotada ao meio, de forma a que se fôssemos atacados pudéssemos trincar a chapa onde metade dela ficaria dentro da nossa boca para mais tarde podermos ser identificados caso fosse necessário (a chapa tinha a identificação nas duas meias metades).

Em caso de morte imediata, metade da placa, por onde passava a corrente de suspensão, acompanhava o corpo, enquanto a outra metade seria enviada ao arquivo competente. Essa chapa para além da nossa identificação militar, tinha o nosso grupo sanguíneo.

mais sobre esta chapa criada em 1964 aqui:

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2009/10/guine-6374-p5068-as-nossas-placas-de.html

Houve muitas variantes no formato e nas indicações inscritas na chapa, nos anos seguintes.


Em Cabinda (Tando Zinze), com a chapa ao pescoço.

18.5.17

O "marufo"

Durante o tempo que permaneci no interior de Cabinda e tendo a floresta do Mayombe por companhia, no quartel (Tando-Zinze) poucas eram as alterações no dia-a-dia. Formaturas, destroçar, cada um ia às suas funções, grupos de combate saíam por vários dias para patrulhar a zona, a pé ou de Unimog, e assim se passavam os dias.

Umas idas até à aldeia faziam parte do nosso desentorpecimento, pois não havia mais nada. Ali bebi “marufo” ou “maluvo”, como era chamado, que não era mais que uma bebida resultante da seiva fermentada das palmeiras. Os locais davam cortes horizontais nas palmeiras e amarravam um utensílio em forma de cone (?) (quase sempre de alumínio) onde essa seiva caía. Depois de fermentada tínhamos uma bebida de grande valor alcoólico. Confesso que quando me deram para provar e ao ver tantos “bichos” dentro do recipiente, a minha vontade foi o de rejeitar, mas sabia que se o fizesse o gesto cairia mal pois os cabindenses só fazem isto a quem gostam Assim lá bebi aquela bebida e francamente não gostei. Mas se não o provasse não saberia se gostaria ou não, assim os meus anfitriões ficaram satisfeitos e eu também por lhes ter agradado a minha atitude.

foto: eu com um camarada de armas, natural de Cabinda. Tirada pelo 2º sargento, Maurício.

23.3.17

A linda cabindense

Estive um ano no quartel na aldeia de Tando-Zinze perdida no Maiombe. Bons e maus momentos passei por lá, mas valeu a pena. O contacto com as populações, coisas que nunca tinha visto: o batuque, danças à volta da fogueira, cabindenses muito bonitas e, em certos locais, uma beleza natural de cortar a respiração.

Um camarada meu, estava "enfeitiçado" por uma rapariga local. Era a mais linda de todas. Linhas de rosto fino, corpo esbelto, andar estonteante, cabelo longo e sedoso; uma Vénus nascida do ventre de OXUM, a mãe da água doce.

Um dia ia eu a passear com ele junto ao rio quando ouvimos vozes femininas. Fomos silenciosamente pelo caniçal, e o que vimos foi tremendo, estavam várias jovens a tomar banho, conforme tinham vindo ao mundo, numa pequena queda de água.

Aquelas peles cor de ébano brilhavam e, entre elas, estava essa rapariga. O meu camarada não conseguiu conter os impulsos. Começou a correr em direção a elas, em direção à sua deusa. As botas chapinhavam naquela água límpida, soltando pequenas gotas de água refulgentes pelo sol. Eu, assistia como um espetador que vê numa tela, a essência de um filme lindo e ao mesmo tempo surreal. Um camarada meu a correr, um rio a passar, a natureza a envolver-me e aquele cenário idílico de lindas raparigas tomando banho numa cascata.

Elas mal o viram, correram para o topo da queda de água e, com aqueles sorrisos lindos, pegaram na roupa e desapareceram na vegetação.

Tempos depois fomos chamados à povoação. Alguém estava muito mal devido a um aborto mal feito. Era a linda cabindense. Foi enviada de helicóptero para o Hospital de Cabinda.

Quando voltamos a vê-la, já não era a mesma. O rosto tinha perdido a beleza de outrora, lindo sim, mas não aquela beleza que a diferenciava. Perdeu ali a magia de uma mulher inatingível. Passou a ser uma mulher, igual a tantas outras.



Foto: tirada no interior da floresta junto ao rio mencionado.



20.3.17

Como o tempo passa...

Fez em janeiro, 43 anos que tirei esta foto, num quarto alugado em Cabinda, depois de ter vindo da mata do Maiombe.