A Tua Vontade é a Tua Vitória

27.6.16

42 anos depois

42 anos são passados desde a altura que tirei esta foto no interior desse mar vegetal de seu nome Maiombe.

"Quero que vejas como eu esta beleza!
Que se alguém já viu eu não sei onde!
São milagres que Deus fez na natureza!
As matas fumegantes do MAIOMBE…! "

Permaneci um ano, num quartel no interior de Cabinda, Tando Zinze.

Das suas cubatas, do sorriso das cabindenses, das noites de batuque, dos alambamentos, do marufo (bebida alcoólica fermentada da seiva da palmeira), das árvores com mais de 20 metros de altura, das picadas lamacentas (picada é um caminho estreito no mato) onde o sol nunca entrava, do malvado mosquito miruí que de tão pequeno era, que nos entrava pelo mosquiteiro e fazia do nosso sangue banquete.

Do malfadado paludismo que me ia quase mandando de "charola" para o hospital. Das festas que fazíamos sozinhos, lá longe onde o sol castiga mais, pelo natal e ano novo.

Das trovoadas que tudo estremecia, da chuva que caía, do dormir em patrulha, no nosso poncho camuflado, debaixo de uma árvore qualquer.

Dos sons dos gorilas, dos pássaros, do silêncio da morte, nunca esqueci

42 anos passados, como o tempo passa!

Cabinda oyé!

3.11.11

Tempos de Guerra

O nosso quartel situava-se numa zona perto da fronteira com o ‘Congo Kinshasa’. Uma zona onde nunca houve problemas de combate entre a nossa companhia e o inimigo, ao contrário do outro lado, em Miconge, esta fazendo fronteira com o Congo Brazzaville, que estava a ser sempre fustigada pela artilharia inimiga.

Quando não há motivos para precauções há tendência para facilitar. Não se tomam as providências necessárias em garantir a segurança e é ver-se situações que não podem acontecer em tempo de guerra.

A eletricidade do nosso quartel, era fornecida por geradores que também forneciam à aldeia próxima, Tando-Zinze. Como não havia gás para confecionar as refeições, era na floresta do Maiombe que íamos buscar lenha para alimentar a fogueira.

Organizava-se um grupo de soldados e, numa Berliet, lá se ia cortar a madeira necessária para abastecer o depósito de lenha. Tinha vindo dos ‘Comandos’, o rigor e disciplina era o nosso lema, não facilitar a nossa divisa. A qualquer momento podíamos ser atacados e tínhamos que estar preparados. Mas ali, na floresta do Maiombe, parecia que nada podia acontecer. Os soldados não tomavam as devidas precauções. Há que cortar e encher a Berliet com os toros de madeira para cima... das armas que ali tinham ficado.

Deixei-os encher. Quando vi que estava tudo na galhofa e prontos para seguirmos para o quartel apontei-lhes a minha G3 e disse: «Eu sou o inimigo, estão todos ‘mortos'». Olharam-me estupefactos. A minha arma estava em posição de rajada. Balbuciaram: - «Ó nosso furriel, deixe-se disso». Perguntei onde estavam as armas deles.

Claro que não foi necessário que mo dissessem. Estavam debaixo de dezenas de toros. E ali, em plena mata do Maiombe, perceberam a lição. Nunca na vida podemos facilitar, pois se em vez de mim fosse realmente o inimigo, estaríamos todos mortos.

As vezes seguintes que voltamos para apanhar lenha, enquanto uns cortavam, outros, em alerta e de G3 apontadas, montavam um perímetro de segurança prontos para qualquer eventualidade.

Na guerra, como na vida, nunca podemos colocar em perigo nem a nossa, nem a vida do nosso semelhante, porque o azar, de um momento para o outro, pode acontecer!

foto: a municiar um camarada no nosso campo de tiro, enquanto ele disparava com a HK21.

8.2.11

As Crianças... Porquê as crianças?!

Gostava de as ver. Brincavam como todas as crianças o sabem fazer. Com dois paus dentro de um pneu velho corriam pela aldeia e com que mestria o faziam. Os seus risos ecoavam por entre o arvoredo. Com visgo apanhavam os pássaros. A estrada era de terra, essa terra vermelha que tanto me fascinou. Nela, levantando nuvens de pó, jogavam com velhas bolas de trapos.

Muitos eram filhos de tropas que por lá passaram. Quase todos por lá ficaram. No regresso à terra de onde saíram, deixavam para trás sementes suas. Quando engravidavam as mulheres, estas eram quase sempre abandonadas à sua sorte. Os filhos nasciam nus e nus ficavam já que os pais não os reconheciam como tal. Novas companhias, novos filhos. A aldeia vivia do cultivo e da... tropa. A tropa era uma das suas formas de subsistência.

Sentava-me muitas vezes na cadeira defronte do meu quarto, olhava para aquelas copas de árvore que esventravam o céu, ouvindo o som dos papagaios cinzentos que atravessavam o espaço no alcance de alguma fêmea para mais uma ninhada de novos papagaios.

E, assim, se passava os dias!

Num dia igual a tantos outros, ouvimos gritos lancinantes vindos da aldeia. Os locais em peso deslocavam-se para o nosso quartel, quisemos saber o que se tinha passado. Foi um dia trágico para aquela aldeia. Um jeep Land Rover, de um grupo de técnicos agrícolas que estavam ao serviço do plano Calabube, que moravam numa casa junto ao posto de polícia, apinhada de crianças, tinha batido numa árvore, por excesso de velocidade, e as crianças tinham sido projectadas. Umas já estavam mortas, outras ainda com sinais de vida.

Fretados os Unimogs para os ir buscar, foram levadas para a nossa enfermaria. Ali assisti à morte de muitas delas. Começaram a inchar e, em desespero, vimos que nada podíamos fazer. Os enfermeiros afadigavam-se tentando por todos meios salvá-las mas, um a um, o peito deixava de arfar e a cabeça caía inerte. Rebentaram todas por dentro. Nunca mais me esqueci do que vi. Depois foi o enterrar daquelas pobres crianças. Uma aldeia em peso a chorar e eu fiz parte do grupo que representou o quartel na despedida. Era o mínimo que podia fazer por eles, por aquele povo que nunca esqueci, o povo de Cabinda.

... e, os meus olhos, naquela despedida, ficaram mar.


foto: Onde estão as escadas era a criptografia. Ao fundo, lado esquerdo, a enfermaria (aqui a nossa Companhia estava de saída)

25.9.09

O Chapéu.

À minha frente, tenho um chapéu. Um chapéu como tantos outros em África, mas um chapéu com história.


1974, a revolução já se tinha dado em Portugal. Em Tando-Zinze, Cabinda, junto ao Mayombe, uma companhia fazia ali o seu poiso. Às notícias vindas do “puto” respondíamos com a continuação das patrulhas pelos trilhos abertos naquela floresta, naquele mar vegetal.

Os interesses partidários engendrados à socapa em Portugal começaram a fazer-se sentir nas províncias ditas ultramarinas.

O apoio dado a um só movimento em Angola pelas altas esferas dominantes pós 25 de Abril, fez com que os nossos quartéis começassem a ser entregues a esse movimento.

Uma delegação do MPLA é recebida no nosso quartel (2 de dezembro de 1974). Nós, os furriéis, aguardávamos serenamente, em frente da nossa messe, o resultado das conversações que estavam a decorrer dentro do gabinete do nosso capitão.

Alguns elementos do MPLA dirigem-se ao nosso encontro. Queriam beber algo fresco.

À primeira reacção de cautela da nossa parte, logo o ambiente se tornou amigável e então olho para um dos que ali estava. Ele sentindo o meu olhar, olhou-me também fixamente e houve da nossa parte algo indescritível, demos um grande abraço para surpresa de todos, os “inimigos” estavam abraçados!

E ficaram a saber toda a história, tínhamos trabalhado na mesma empresa em Luanda, exactamente nas oficinas da "União Comercial de Automóveis" no Bairro da Boavista.

Soube, contado por ele, que a Pide/DGS andava à sua procura para o prender. Assim optou por fugir e foi para as FAPLA.

Olhei para este amigo e agradeci aos deuses o facto de nunca o ter encontrado no campo de batalha frente-a-frente. Um dos dois teria morrido nessa altura.

Na hora da despedida ele ofereceu-me o seu chapéu, hoje, 34 anos passados, ainda o tenho guardado.

Eu, com o chapéu, no quartel em Tando-Zinze


Obrigado amigo, estejas onde estiveres!

30.9.08

A Tua Vontade É a Tua Vitória!

  A noite tinha caído sobre o aquartelamento. Cá fora as aves nocturnas faziam-se ouvir naquela floresta densa. A lua cheia corria devagar no céu. As sentinelas, nos seus postos, perscrutavam a mata procurando não ouvir um ruído que lhes alertasse os sentidos. A aldeia próxima dormitava e só aqui e ali se ouviam os latidos dos cães. Nas camaratas os soldados dormiam o sono dos justos, depois de mais um dia de patrulhas e de labuta no quartel.

  - Meu furriel, meu furriel – disse alguém abanando-me com firmeza.

  - O que é? – Pergunto eu, ainda estremunhado, afastando o mosquiteiro que, sobre a minha cama, impedia-me ser mordido pelos mosquitos mas não pelos miruins, esses mosquitos muito mais pequenos que se infiltravam prontos a mais uma refeição de sangue humano.

  - Há terroristas infiltrados no quartel – disse em voz baixa a sentinela.

  - Onde é que os vistes?

  - Junto à arrecadação do armamento.

  Estamos feitos, pensei eu!... Se conseguissem abrir a arrecadação teriam em seu poder o armamento suficiente para nos dizimar.

  - Como, quantos e quando os vistes?

  - Eram dois, estavam a rastejar em direcção à arrecadação e foi há poucos minutos.

  Peguei na minha HK21, já com a fita metida pronta a disparar. O bipé dava jeito para melhor segurar a metralhadora. Com a prática levada dos Comandos a HK fazia parte do meu corpo assim como a minha G3. Fosse para onde fosse, nem por um momento a abandonava. Mesmo quando se ia ao interior do Maiombe buscar lenha, a guarda era montada e ai daquele que se esquecesse dentro do Berliet da arma e colocasse os toros de madeira por cima, tínhamos o caldo entornado, na guerra não podemos facilitar a vida ao inimigo.

  Sussurrando aqui e ali, o quartel foi despertando e de pronto ali estávamos para vender caro a vida.

  Em grupos íamos saindo das nossas camaratas cada um de nós com o seu grupo de combate.

  A cada barulho todo o nosso corpo vibrava e adrenalina subia. Circundámos o quartel e de inimigo nem rastos. As nuvens tapavam o céu tornando a noite escura num quartel já de si em plena escuridão.

  Na arrecadação nem vivalma, no paiol idem, junto aos Unimogues e Berliets nada.

  De repente dou uma gargalhada. Todos os meus camaradas se entreolharam perante esta minha saída. «Terá enlouquecido? – Pensariam eles». E eu continuava a rir-me que nem um perdido naquela noite onde uma sentinela tinha visto dois vultos rastejando para a arrecadação.

  Perante o assombro dos meus camaradas apontei para dois cães que vagueavam no quartel. A lua cheia tinha surgido e batendo em cheio nos cães, a sua luz prolongava as suas sombras parecendo, à distância, dois vultos a rastejar.

  Ali estavam os dois terroristas. Por momentos não ganhámos para o susto mas foi bom que assim fosse, tudo está bem quando acaba em bem já dizia Voltaire.

  Elogiou-se a atitude do sentinela, pois nada deve ser deixado ao acaso, fomos até ao bar para refrescar as gargantas e as ideias, e depois cada um voltou para a sua camarata. Nessa noite os «Gorilas do Maiombe» tinham-se safado, faltavam ainda muitos mais dias e noites para se safarem de vez!

foto: o nosso quartel em Tando Zinze