A noite estava escuríssima junto à fronteira com o Congo Kinshasa. Tínhamos sido alertados para um acidente com uma nossa viatura. Saímos do quartel e, com as cautelas devidas, seguimos em direção à fronteira para verificar o que tinha acontecido e se havia mortos ou feridos pois a informação era escassa. Chegados ao local verificámos que uma Berliet se tinha-se virado e, para além da nossa tropa, também levava civis. Caíram todos e tanta sorte houve que, felizmente, só um soldado tinha desmaiado ao bater com a cabeça no chão e uma criança com uma luxação no braço.
Mas o azar não ficou por aqui. O moço que tinha visto o acidente, tinha comunicado o caso à tropa na sua motorizada. Eu sabendo disso, levei-lhe um 'jerrycan' com gasolina para lhe oferecer por ter feito esse favor. Como a gasolina por ali era escassa o rapaz ficou todo satisfeito. Mas a satisfação transformou-se em tristeza. Devido a candeia estar muito perto da gasolina, logo esta se incendiou e a motorizada ficou numa lástima.
A esta distância, não posso precisar, e eu no que escrevi não adianto mais nada sobre o assunto, se a motorizada foi arranjada no nosso quartel e devolvida ao dono em condições.
Nessa mesma noite estava de serviço. A longa noite esperava por mim. Dentro em pouco, os geradores iriam desligar. O quartel e a povoação de Tando Zinze, ficariam às escuras.
A meu lado um dos cães iria fazer-me companhia e acompanhar-me na ronda pelo quartel.
Eu, o silêncio e as estrelas, num dia igual a tantos outros, ali, junto à floresta do Maiombe.
22-07-1974
14.3.19
18.12.18
Tesourinhos...
Impressionante, ao fim de 44 anos, ainda tenho as faturas das compras que fiz na tropa em Cabinda, relativamente a um rádio giradisco (muito em voga na época) no valor de 4.500 escudos, uns auscultadores (1.350 escudos), comprados na Manjarona a 29/3/1974 e a 23/7/1974 respetivamente, uma aparelhagem "National Panasonic", no valor de 14.000 escudos em 23/7/1974, na Casa Americana Comercial, filial nº14 da Casa Americana de Luanda e um gravador (toca cassetes :) ) na Daniel e Oliveira, no valor de 4.300 escudos em 3/9/1974.
O rádio giradisco e o gravador já cumpriram a sua missão, os auscultadores velhinhos ainda os tenho, mas não uso, e a aparelhagem ainda toca e bem.
Em Cabinda não se pagava direitos aduaneiros e os preços eram mais em conta.
fotos: as faturas e eu num quarto em Cabinda (depois de ter saído de Tando Zinze, em dezembro de 1974), onde se pode ver os auscultadores, a aparelhagem e o gravador.
O rádio giradisco e o gravador já cumpriram a sua missão, os auscultadores velhinhos ainda os tenho, mas não uso, e a aparelhagem ainda toca e bem.
Em Cabinda não se pagava direitos aduaneiros e os preços eram mais em conta.
fotos: as faturas e eu num quarto em Cabinda (depois de ter saído de Tando Zinze, em dezembro de 1974), onde se pode ver os auscultadores, a aparelhagem e o gravador.
14.12.18
O quico
Hoje, "voltei" à floresta do Maiombe (Cabinda) no "meu" pinhal.
Quem sabe se há 43 anos atrás, no quartel em Tando Zinze, não estava também a olhar aquele "mar vegetal", com o quico na cabeça.
O tempo passa, mas as recordações ficam.
Quem sabe se há 43 anos atrás, no quartel em Tando Zinze, não estava também a olhar aquele "mar vegetal", com o quico na cabeça.
O tempo passa, mas as recordações ficam.
Tesourinhos...
(do fundo do baú)
Dia 11 de dezembro de 1973, vindo dos Comandos, embarquei em Luanda, já como Furriel Miliciano, na lancha "Alabarda", com destino a Cabinda.
Chego no dia 12 ao B.Caç11 e vou para o quartel em Tando Zinze no MVL (Movimento Viaturas Logístico) no dia 13. Já lá vão 45 anos
O que me resta desse tempo? Fotos, cartas, alguns postais e ao mexer no "baú", encontro o meu "Quico" com abas de grilo e a minha boina.
O resto do uniforme, a traça, durante a viagem Angola/Portugal, traçou-lhe o destino.
Passados todos estes anos reparei ao colocar a boina, que esta com o tempo encolheu, ou o meu crânio cresceu (não sei se o cérebro acompanhou o aumento craniano, mas penso que sim :) )
Dia 11 de dezembro de 1973, vindo dos Comandos, embarquei em Luanda, já como Furriel Miliciano, na lancha "Alabarda", com destino a Cabinda.
Chego no dia 12 ao B.Caç11 e vou para o quartel em Tando Zinze no MVL (Movimento Viaturas Logístico) no dia 13. Já lá vão 45 anos
O que me resta desse tempo? Fotos, cartas, alguns postais e ao mexer no "baú", encontro o meu "Quico" com abas de grilo e a minha boina.
O resto do uniforme, a traça, durante a viagem Angola/Portugal, traçou-lhe o destino.
Passados todos estes anos reparei ao colocar a boina, que esta com o tempo encolheu, ou o meu crânio cresceu (não sei se o cérebro acompanhou o aumento craniano, mas penso que sim :) )
21.11.18
A "Primus"
Primus - cerveja congolesa
16 de julho de 1974 - Tando Zinze
A Companhia tinha sido informada de que havia tropas do Congo do nosso lado (Cabinda). Rapidamente o meu grupo avançou para o local onde diziam ter visto as tropas. Embora levasse a minha metralhadora Hk21, ia com um certo receio (não confundir com medo, pois nunca tive medo de nada) pois era eu que ia à frente (quando nos deslocávamos para a mata em patrulha nenhum dos graduados levava divisas).
Andámos muitos km, já a metralhadora me pesava e de tropas congolesas nada. Chegámos junto à fronteira com o Congo Kinshasa e um autóctone que trabalhava numa roça perto, disse-nos que as tropas já tinham ido para o Congo e levaram com eles 18 mulheres. Eram congolesas e tinham vindo fazer contrabando com os de Cabinda. Respirei aliviado.
Como já era tarde iríamos pernoitar em Chingundo no quartel dos T.E's. (tropas especiais. Antigos guerrilheiros que se entregaram às tropas portuguesas)
Chegados lá, houve logo quem se dirigi-se a nós perguntando se não estávamos interessados em passar uma noite agradável, em boa companhia.
Seriam congolesas as damas dessa noite na esteira. Uns sim outros não, conforme o preço apresentado.
Enquanto se aguardava, há que comer e beber a famosa "Primus". De bom sabor, ao fim de algum beber torna-se enjoativa, mas ali no meio do mato, todas as cervejas são boas.
Como não há frigoríficos (em Angola designam-se por geleiras), há que bebê-la mesmo quente. Litros emborcados e eis que chegam as damas.
Quartos arranjados e os felizardos seguem para a esteira.
De repente vemos uma porta a abrir. Sai de lá um tropa aflito e vomita a cerveja para o mato. Aos nossos risos, a explicação foi dada, com os "balanços" a "Primus" entrou em "ebulição" e quente como estava, lá teve que sair para não sujar o corpo divinal que ali o aguardava.
Já sem vómitos, dirige-se para o quarto, fechando a porta atrás de si.
quartel dos T.E's (foto de Antonio Jose Santos)
cerveja Primus
16 de julho de 1974 - Tando Zinze
A Companhia tinha sido informada de que havia tropas do Congo do nosso lado (Cabinda). Rapidamente o meu grupo avançou para o local onde diziam ter visto as tropas. Embora levasse a minha metralhadora Hk21, ia com um certo receio (não confundir com medo, pois nunca tive medo de nada) pois era eu que ia à frente (quando nos deslocávamos para a mata em patrulha nenhum dos graduados levava divisas).
Andámos muitos km, já a metralhadora me pesava e de tropas congolesas nada. Chegámos junto à fronteira com o Congo Kinshasa e um autóctone que trabalhava numa roça perto, disse-nos que as tropas já tinham ido para o Congo e levaram com eles 18 mulheres. Eram congolesas e tinham vindo fazer contrabando com os de Cabinda. Respirei aliviado.
Como já era tarde iríamos pernoitar em Chingundo no quartel dos T.E's. (tropas especiais. Antigos guerrilheiros que se entregaram às tropas portuguesas)
Chegados lá, houve logo quem se dirigi-se a nós perguntando se não estávamos interessados em passar uma noite agradável, em boa companhia.
Seriam congolesas as damas dessa noite na esteira. Uns sim outros não, conforme o preço apresentado.
Enquanto se aguardava, há que comer e beber a famosa "Primus". De bom sabor, ao fim de algum beber torna-se enjoativa, mas ali no meio do mato, todas as cervejas são boas.
Como não há frigoríficos (em Angola designam-se por geleiras), há que bebê-la mesmo quente. Litros emborcados e eis que chegam as damas.
Quartos arranjados e os felizardos seguem para a esteira.
De repente vemos uma porta a abrir. Sai de lá um tropa aflito e vomita a cerveja para o mato. Aos nossos risos, a explicação foi dada, com os "balanços" a "Primus" entrou em "ebulição" e quente como estava, lá teve que sair para não sujar o corpo divinal que ali o aguardava.
Já sem vómitos, dirige-se para o quarto, fechando a porta atrás de si.
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