A Tua Vontade é a Tua Vitória

18.12.18

Tesourinhos...

Impressionante, ao fim de 44 anos, ainda tenho as faturas das compras que fiz na tropa em Cabinda, relativamente a um rádio giradisco (muito em voga na época) no valor de 4.500 escudos, uns auscultadores (1.350 escudos), comprados na Manjarona a 29/3/1974 e a 23/7/1974 respetivamente, uma aparelhagem "National Panasonic", no valor de 14.000 escudos em 23/7/1974, na Casa Americana Comercial, filial nº14 da Casa Americana de Luanda e um gravador (toca cassetes :) ) na Daniel e Oliveira, no valor de 4.300 escudos em 3/9/1974.

O rádio giradisco e o gravador já cumpriram a sua missão, os auscultadores velhinhos ainda os tenho, mas não uso, e a aparelhagem ainda toca e bem.

Em Cabinda não se pagava direitos aduaneiros e os preços eram mais em conta.

fotos: as faturas e eu num quarto em Cabinda (depois de ter saído de Tando Zinze, em dezembro de 1974), onde se pode ver os auscultadores, a aparelhagem e o gravador.

14.12.18

O quico

Hoje, "voltei" à floresta do Maiombe (Cabinda) no "meu" pinhal.

Quem sabe se há 43 anos atrás, no quartel em Tando Zinze, não estava também a olhar aquele "mar vegetal", com o quico na cabeça.

O tempo passa, mas as recordações ficam.

Tesourinhos...

(do fundo do baú)

Dia 11 de dezembro de 1973, vindo dos Comandos, embarquei em Luanda, já como Furriel Miliciano, na lancha "Alabarda", com destino a Cabinda.

Chego no dia 12 ao B.Caç11 e vou para o quartel em Tando Zinze no MVL (Movimento Viaturas Logístico) no dia 13. Já lá vão 45 anos

O que me resta desse tempo? Fotos, cartas, alguns postais e ao mexer no "baú", encontro o meu "Quico" com abas de grilo e a minha boina.

O resto do uniforme, a traça, durante a viagem Angola/Portugal, traçou-lhe o destino.

Passados todos estes anos reparei ao colocar a boina, que esta com o tempo encolheu, ou o meu crânio cresceu (não sei se o cérebro acompanhou o aumento craniano, mas penso que sim :) )

21.11.18

A "Primus"

Primus - cerveja congolesa

16 de julho de 1974 - Tando Zinze

A Companhia tinha sido informada de que havia tropas do Congo do nosso lado (Cabinda). Rapidamente o meu grupo avançou para o local onde diziam ter visto as tropas. Embora levasse a minha metralhadora Hk21, ia com um certo receio (não confundir com medo, pois nunca tive medo de nada) pois era eu que ia à frente (quando nos deslocávamos para a mata em patrulha nenhum dos graduados levava divisas).

Andámos muitos km, já a metralhadora me pesava e de tropas congolesas nada. Chegámos junto à fronteira com o Congo Kinshasa e um autóctone que trabalhava numa roça perto, disse-nos que as tropas já tinham ido para o Congo e levaram com eles 18 mulheres. Eram congolesas e tinham vindo fazer contrabando com os de Cabinda. Respirei aliviado.

Como já era tarde iríamos pernoitar em Chingundo no quartel dos T.E's. (tropas especiais. Antigos guerrilheiros que se entregaram às tropas portuguesas)

Chegados lá, houve logo quem se dirigi-se a nós perguntando se não estávamos interessados em passar uma noite agradável, em boa companhia.

Seriam congolesas as damas dessa noite na esteira. Uns sim outros não, conforme o preço apresentado.

Enquanto se aguardava, há que comer e beber a famosa "Primus". De bom sabor, ao fim de algum beber torna-se enjoativa, mas ali no meio do mato, todas as cervejas são boas.

Como não há frigoríficos (em Angola designam-se por geleiras), há que bebê-la mesmo quente. Litros emborcados e eis que chegam as damas.

Quartos arranjados e os felizardos seguem para a esteira.

De repente vemos uma porta a abrir. Sai de lá um tropa aflito e vomita a cerveja para o mato. Aos nossos risos, a explicação foi dada, com os "balanços" a "Primus" entrou em "ebulição" e quente como estava, lá teve que sair para não sujar o corpo divinal que ali o aguardava.

Já sem vómitos, dirige-se para o quarto, fechando a porta atrás de si.


quartel dos T.E's (foto de Antonio Jose Santos)

cerveja Primus

21.8.18

Filhos de Branco - Tiros na Noite

Introito

Antes de começar só queria esclarecer uma coisa. O povo de Cabinda (de etnia Bakongo), é um povo orgulhoso. As mulheres que eram nossas lavadeiras, não eram obrigadas por nós tropa, a serem nossa companheira de esteira. Eram porque o queriam ser. Ao contrário do que muito se vê hoje, onde se troca de um companheir@ para outr@ como quem troca de camisa, as lavadeiras eram fiéis aos seus companheiros, até que estes se iam embora.

Depois arranjavam outro. As razões já as apontei num dos temas. Como é óbvio, elas não lavavam a roupa só de um tropa, mal delas, mas sim de vários, mas só com aquele que elas achavam que seria um bom companheiro, é que tinham relações.

O mal era quando engravidavam. O tropa não assumia a paternidade, pois não era para isso que tinham sexo na esteira, e daí haver em muitas aldeias africanas (e nas cidades) muitos filhos de branco que não sabem quem é o pai. Mas isso até nos tempos atuais existe.

«Deus criou o Homem e o Português criou o Mulato»

Feito o introito, vamos ao que interessa.

Sábado na aldeia era quase sempre dia de farra. Nas tabancas, na rua, num local onde se pudesse dançar, ali estava o povo. Era maravilhoso ver os corpos dançando ao som de ritmos de Cabinda que tendo influência congolesa, nada tinha a ver com a música do resto de Angola. Ao som de Franco, artista congolês muito em voga, a terra transformava-se em pó, sobre os pés dos dançarinos

Muitos tropas iam até à aldeia aproveitando para um passo de dança e... de maka (conflito, discórdia).

A bebida escorregava pelas gargantas, quase sempre a cerveja congolesa "Primus" (bastante suave e adocicada, mas que tem que ser bebida bem gelada, escrevi eu numa carta na época).

Depois de bem bebidos, começava a confusão. Tudo por causa das mulheres, ou porque não quis dançar com eles e foi dançar com outro, ou porque se fez um convite para uma viagem até à esteira e lhe foi negado, certo é que passado um tempo, aquilo era uma confusão, com tareia de todo o tamanho.

Ouviram-se tiros na noite. Alguns aldeões vieram ter connosco ao quartel, porque havia um tropa que andava lá aos tiros.

Formou-se um grupo e fomos até à aldeia. Desse tropa nem rasto.

Como já referi a partir de certa hora o gerador era desligado. Escuro como breu, fizemos revista às imediações e em algumas casas onde pudesse estar escondido. Dele nem vivalma.

Passamos a fazer a procura dentro do quartel. Não esquecendo que estava armado e bêbado, todo o cuidado era pouco. Ao fim de umas horas alguém se lembrou de irmos até ao poço que ficava quase no limite do quartel e ali estava ele. Tremia que nem varas verdes. Foi algemado ao pau da bandeira e ali ficou até ao amanhecer por castigo. Depois de uns dias na prisão, retomou o seu dia a dia na Companhia.

Nunca mais tivemos problemas, com bebedeiras, com os aldeões. Foi remédio santo.

A aldeia de Tchinguinguili (Tando Zinze)

Foto de Filipe Quintas - Inícios de 1975