A Tua Vontade é a Tua Vitória

17.4.17

Fim de Comissão

Cabinda

A aguardar viagem para Luanda, para passar à disponibilidade.




Deu ainda para ver no Cinema Chiloango, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Fausto .


23.3.17

A linda cabindense

Estive dois anos no mato nesta aldeia (Tando-Zinze) perdida no Maiombe. Bons e maus momentos passei por lá, mas valeu a pena. O contacto com as populações, coisas que nunca tinha visto: o batuque e as danças à volta da fogueira, cabindenses muito bonitas e em certos locais uma beleza natural de cortar a respiração.


Um camarada meu que está nesta foto (o de bigode com a cerveja na mão), estava "enfeitiçado" por uma rapariga local. Era a mais linda de todas. Um dia ia eu a passear com ele junto ao rio quando ouvimos vozes femininas. Fomos em passo "fantasma" como tínhamos aprendido nos Comandos pelo caniçal e o que vimos foi tremendo, estavam a tomar banho conforme tinham vindo ao mundo numa pequena queda de água.

Aquela pele cor de ébano brilhava e entre elas estava essa rapariga. O meu camarada não conseguiu conter os impulsos. Começou a correr dentro de água mas elas mal o viram correram logo para cima do tal local de onde a água caía. Pegaram na roupa e, com aqueles sorrisos lindos, desapareceram na vegetação.

Tempos depois fomos chamados à povoação. Alguém estava muito mal devido a um aborto mal feito. Era a linda cabindense. Foi enviada de helicóptero para a cidade de Cabinda.

Quando voltamos a vê-la, já não era a mesma. O rosto tinha perdido a beleza de outrora e passara a ser mais um rosto entre outros tantos rostos, lindos sim, mas não aquela beleza que a diferenciava das outras.




20.3.17

Como o tempo passa...

Fez em janeiro, 42 anos que tirei esta foto, num quarto alugado em Cabinda, depois de ter vindo da mata do Maiombe.

3.11.11

Tempos de Guerra



Sabemos que na vida não podemos facilitar. Se algo nos corre bem durante um período lato de tempo não significa isso que, de um momento para o outro, tudo se possa alterar se não tivermos o cuidado e atenção permanentes.

Cabinda

O nosso quartel situava-se numa zona perto da fronteira com o ‘Congo Kinshasa’. Uma zona, que eu saiba, nunca houve problemas de combates entre o inimigo e as companhias militares anteriores à nossa, ao contrário do outro lado, em Miconge, esta fazendo fronteira com o Congo Brazzaville, que estava a ser sempre fustigada pelo tiro e artilharia inimiga. Quando não há motivos para precauções há tendência para facilitar. Não se tomam as providências necessárias em garantir a segurança e é ver-se situações que não podem acontecer em tempo de guerra.

Como a eletricidade ao nosso quartel era fornecida pelos geradores que também forneciam à aldeia próxima, Tando-Zinze, e como não havia gás para confecionar as refeições, era na floresta do Maiombe que íamos buscar a lenha para a feitura das mesmas.

                      Quero que vejas como eu esta beleza!
                      Que se alguém já viu eu não sei onde!
                      São milagres que Deus fez na natureza!
                      As matas fumegantes do MAIOMBE…!


Pronto para mais uma patrulha


Organizava-se um grupo de soldados e numa Berliet lá se ia cortar a madeira necessária para abastecer o depósito de lenha. Tinha vindo dos ‘Comandos’, o rigor e disciplina era o nosso lema. Não facilitar a nossa divisa. A qualquer momento podíamos ser atacados e tínhamos que estar preparados. Mas ali, na floresta do Maiombe, parecia que nada podia acontecer. Os soldados não tomavam as devidas precauções. Há que cortar e encher a Berliet com os toros de madeira para cima... das armas que ali tinham ficado. Deixei-os encher. Quando vi que estava tudo na galhofa e prontos para seguirem para o quartel apontei-lhes a minha G3 e disse: «Eu sou o inimigo, estão todos ‘mortos'». Olharam-me estupefactos. A minha arma estava em posição de rajada. Balbuciaram: - «Ó nosso furriel, deixe-se disso». Perguntei onde estavam as armas deles. Claro que não foi necessário que mo dissessem. Estavam debaixo de dezenas de toros. E ali em plena mata do Maiombe perceberam a lição. Nunca na vida podemos facilitar, pois se em vez de mim fosse realmente o inimigo, estaríamos todos mortos.

No interior da floresta do Maiombe


As vezes que voltamos depois para apanhar lenha, enquanto uns cortavam outros, em alerta e de G3 apontadas, montavam um perímetro de segurança prontos para qualquer eventualidade.

Na guerra, como na vida, nunca podemos colocar em causa nem a nossa, nem a vida do nosso semelhante, porque o azar, de um momento para o outro, pode acontecer!

8.2.11

As Crianças... Porquê?



Durante o tempo que permaneci no interior de Cabinda e tendo a floresta do Mayombe por companhia, no quartel (Tando-Zinze) poucas eram as alterações no dia-a-dia. Formaturas, destroçar, cada um ia às suas funções, grupos de combate saíam por vários dias para patrulhar a zona, a pé ou de Unimog, e assim se passavam os dias.

Vista geral do nosso Quartel


Umas idas até à aldeia faziam parte do nosso desentorpecimento, pois não havia mais nada. Ali bebi “marufo” ou “maluvo”, como era chamado, que não era mais que uma bebida resultante da seiva fermentada das palmeiras. Os locais davam cortes horizontais nas palmeiras e amarravam um utensílio em forma de cone (?) (quase sempre de alumínio) onde essa seiva caía. Depois de fermentada tínhamos uma bebida de grande valor alcoólico. Confesso que quando me deram para provar e ao ver tantos “bichos” dentro do recipiente, a minha vontade foi o de rejeitar, mas sabia que se o fizesse o gesto cairia mal pois os cabindenses só fazem isto a quem gostam (hei-de um dia contar o “alambamento” que vi nesta aldeia, que faz parte das tradições deste povo). Assim lá bebi aquela bebida e francamente não gostei. Mas se não o provasse não saberia se gostaria ou não, assim os meus anfitriões ficaram satisfeitos e eu também por lhes ter agradado a minha atitude.

Num dia igual a tantos, ouvimos gritos lancinantes vindos da aldeia. Os locais em peso deslocavam-se para o nosso quartel, recebemo-los e quisemos saber o que se tinha passado. Foi um dia trágico para aquela aldeia. Uma carrinha apinhada de crianças tinha batido numa árvore, por excesso de velocidade, e as crianças tinham sido projectadas. Umas já estavam mortas, outras ainda com sinais de vida. Foram fretados Unimogs para os ir buscar e foram levadas para a nossa enfermaria. Ali assisti à morte de muitas delas. Começaram a inchar e em desespero vimos que nada se podia fazer. Os enfermeiros afadigavam-se em tentar por todos os meios salvá-los mas um a um víamos o parar do arfar e a cabeça cair inerte. Rebentaram todas por dentro. Nunca mais me esqueci do que vi. Depois foi o enterrar daquelas pobres crianças. Uma aldeia em peso a chorar e eu fiz parte do grupo que representou o quartel na despedida. Era o mínimo que podia fazer por eles, por aquele povo que nunca esqueci, o povo de Cabinda.

Ao fundo, lado esquerdo, a nossa enfermaria