A Tua Vontade é a Tua Vitória

8.6.17

Picante

Andávamos há uns quatro dias em patrulha. Na floresta do Maiombe a humidade é uma constante. A chuva cai com frequência, os trilhos ficam alagados, o sol não penetra e a lama permanece durante semanas.

A alimentação baseava-se essencialmente nas rações de reserva que levávamos na mochila que, com os atilhos finos, nos magoava os ombros. A água era filtrada dos lagos que encontrávamos (caso não chovesse), um comprimido de quinino dentro e há que beber.

A irritação devido às circunstâncias; alerta de possível ataque, as agruras dos trilhos, a distância do objetivo, o dormir enregelado no nosso poncho, fazia disparar em flecha a nossa má disposição.

O meu grupo chega a uma aldeia. Verifico que haviam muitas galinhas a penicar aqui e ali.

Chamo o soba e pergunto de quem eram as galinhas pois queria comprar algumas para satisfazer a fome do grupo. Diz-me o soba que não eram de ninguém. Ah, não são de ninguém? Digo a uns soldados para apanharem meia dúzia e apertarem o pescoço. Assim fizeram e o dono apareceu logo.

Regateio com ele o preço e, feito o pagamento, pergunto se não há na aldeia quem pudesse fazer uma churrascada daquelas galinhas.

Apareceu uma mulher que se predispôs a fazer isso.

Tantos anos depois ainda não consigo saber se foi por vingança ou se o churrasco naquela aldeia tem aquele jindungo (nome do piripiri em Angola) todo. Certo é que, em volta da fogueira, suava que nem bicho no deserto e a boca ardia e de que maneira.

Como a cerveja estava quente, maldisse o dia que mandei apertar o pescoço a umas quantas galinhas.

Mas houve festa e foi uma noite inesquecível, uma pelo picante que hoje, passados 43 anos, ainda me "queima", outra por aquele ambiente incrível de, no meio de uma floresta, numa aldeia perdida, ouvir o fogo a crepitar ao som do batuque.

fotos: pinturas compradas em Cabinda (creio que são congolesas)

26.5.17

A Perseguição

O quartel em Miconge, junto à fronteira do Congo Brazaville, tinha sido atacado à morteirada. Corre a tropa para as valas de abrigo. Cai uma granada de morteiro numa delas, atingindo mortalmente o cozinheiro que ali procurava a segurança que, infelizmente, lhe faltou.

O relato seguinte é que ao avanço do IN um furriel com uma metralhadora impedira que o quartel fosse tomado.

Falou-se depois de um rodízio de companhias que estavam em Cabinda, Miconge era a zona mais sacrificada pelo ataque do IN.

Seria a nossa companhia a seguir para essa zona, o que não veio a acontecer pois deu-se... o 25 de abril.

Estávamos todos em stress. Embora do lado do Congo Kinshasa, fomos informados que poderia haver um ataque a qualquer momento.

Tinham sido avistados grupos de indivíduos em aldeias perto do Congo do Mobutu. O meu grupo de combate tinha que partir para essa zona.

Devido às características de uma floresta virgem, tinha que ser em grupos e não a companhia a deslocar-se para a zona de possível contingência de ataque.

Inicialmente vamos de Unimog e depois somos entregues à nossa sorte.

O grupo divide-se em dois pela picada. Olhos e ouvidos atentos. A cada restolhar vindo da floresta, um calafrio percorria-nos. O que seria aquilo? Alguma cobra, animal, ou...

A noite cai. Monta-se guarda. Partiríamos no dia seguinte. Rações de reserva, nada de lume, nada de sons, tudo em silêncio.

Os turnos vão-se revezando durante a noite. O dia nasce, seguimos caminho. Quilómetros percorridos e eis que surge à nossa frente uma aldeia. Todo o grupo esconde-se tentando perceber onde estávamos. Ouvimos as vozes dos aldeões. Estávamos no Congo.

Retirámos com os cuidados necessários, para não notarem a nossa presença.

Dirigimo-nos para uma das aldeia onde tinha sido referenciado a presença dos tais indivíduos. Chamou-se o soba, o responsável da aldeia, que nos informou que essas pessoas não mais eram que congoleses que vinham vender ou trocar produtos e artesanato de lado de lá com os fiotes (naturais de Cabinda).

Ficámos aliviados pela informação dada. Afinal não era o IN mas simples aldeões que contrabandeavam com os locais.

Iríamos permanecer naquele dia na aldeia, no dia seguinte regressaríamos ao quartel.

Foto: a nossa messe, habitação e casa de banho. Tudo em madeira e virado para a entrada do quartel. O meu quarto era o primeiro da direita, onde está a lavadeira com o filhote. Na janela tinha uma HK21 com o pente de balas montado, para qualquer eventualidade.

22.5.17

Patrulhando

G3 e sacos no Unimog prontos para mais uma patrulha e pelos sacos deveria ser por muitos dias. O Unimog levava-nos até um local determinado, regressava ao quartel e nós seguíamos rumo ao objectivo.

Nos sacos levávamos as rações de reserva para vários dias, o poncho (impermeável para nos proteger do frio e da chuva) e por vezes um saco cama.

Dormíamos onde calhava, até debaixo dos cafeeiros sujeitos a sermos mordidos por essa cobra venenosa, a mamba verde que se encontrava muito nesses locais.

E com chuva, com o terreno enlameado, com o perigo à espreita pois nunca se sabia se era a nossa vez de levar com o chumbo, lá íamos muitas vezes durante uma semana, por aquela floresta, até sermos recolhidos outra vez.

19.5.17

A chapa da morte

A minha identificação de morte, na guerra do "Ultramar".

Fio com uma chapa redonda, com o nosso nº de identificação militar (nº mecanográfico). Chapa picotada ao meio, de forma a que se fôssemos atacados e possivelmente mortos, pudéssemos trincar a chapa onde metade dela ficaria dentro da nossa boca para mais tarde podermos ser identificados caso fosse necessário(a chapa tinha a identificação nas duas meias metades).

Em caso de morte imediata, metade da placa, por onde passava a corrente de suspensão, acompanhava o corpo, enquanto a outra metade seria enviada ao arquivo competente. Essa chapa para além da nossa identificação militar, tinha o nosso grupo sanguíneo.

mais sobre esta chapa criada em 1964 aqui:

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2009/10/guine-6374-p5068-as-nossas-placas-de.html

Houve muitas variantes no formato e nas indicações inscritas na chapa, nos anos seguintes.


Em Cabinda, com a chapa ao pescoço.

18.5.17

O "marufo"

Durante o tempo que permaneci no interior de Cabinda e tendo a floresta do Mayombe por companhia, no quartel (Tando-Zinze) poucas eram as alterações no dia-a-dia. Formaturas, destroçar, cada um ia às suas funções, grupos de combate saíam por vários dias para patrulhar a zona, a pé ou de Unimog, e assim se passavam os dias.

Umas idas até à aldeia faziam parte do nosso desentorpecimento, pois não havia mais nada. Ali bebi “marufo” ou “maluvo”, como era chamado, que não era mais que uma bebida resultante da seiva fermentada das palmeiras. Os locais davam cortes horizontais nas palmeiras e amarravam um utensílio em forma de cone (?) (quase sempre de alumínio) onde essa seiva caía. Depois de fermentada tínhamos uma bebida de grande valor alcoólico. Confesso que quando me deram para provar e ao ver tantos “bichos” dentro do recipiente, a minha vontade foi o de rejeitar, mas sabia que se o fizesse o gesto cairia mal pois os cabindenses só fazem isto a quem gostam Assim lá bebi aquela bebida e francamente não gostei. Mas se não o provasse não saberia se gostaria ou não, assim os meus anfitriões ficaram satisfeitos e eu também por lhes ter agradado a minha atitude.

foto: eu com um camarada de armas, natural de Cabinda. Tirada pelo 2º sargento, Maurício.

17.4.17

Fim de Comissão

Cabinda

A aguardar viagem para Luanda, para passar à disponibilidade.




Deu ainda para ver no Cinema Chiloango, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Fausto .


23.3.17

A linda cabindense

Estive dois anos no mato nesta aldeia (Tando-Zinze) perdida no Maiombe. Bons e maus momentos passei por lá, mas valeu a pena. O contacto com as populações, coisas que nunca tinha visto: o batuque, danças à volta da fogueira, cabindenses muito bonitas e, em certos locais, uma beleza natural de cortar a respiração.

Um camarada meu, estava "enfeitiçado" por uma rapariga local. Era a mais linda de todas. Linhas de rosto fino, corpo esbelto, andar estonteante, cabelo longo e sedoso; uma Vénus nascida do ventre de OXUM, a mãe da água doce.

Um dia ia eu a passear com ele junto ao rio quando ouvimos vozes femininas. Fomos silenciosamente pelo caniçal, e o que vimos foi tremendo, estavam várias jovens a tomar banho, conforme tinham vindo ao mundo, numa pequena queda de água.

Aquelas peles cor de ébano brilhavam e, entre elas, estava essa rapariga. O meu camarada não conseguiu conter os impulsos. Começou a correr em direção a elas, em direção à sua deusa. As botas chapinhavam naquela água límpida, soltando pequenas gotas de água refulgentes pelo sol. Eu, assistia como um espetador que vê numa tela, a essência de um filme lindo e ao mesmo tempo surreal. Um camarada meu a correr, um rio a passar, a natureza a envolver-me e aquele cenário idílico de lindas raparigas tomando banho numa cascata.

Elas mal o viram, correram para o topo da queda de água e, com aqueles sorrisos lindos, pegaram na roupa e desapareceram na vegetação.

Tempos depois fomos chamados à povoação. Alguém estava muito mal devido a um aborto mal feito. Era a linda cabindense. Foi enviada de helicóptero para a cidade de Cabinda.

Quando voltamos a vê-la, já não era a mesma. O rosto tinha perdido a beleza de outrora, lindo sim, mas não aquela beleza que a diferenciava. Perdeu ali a magia de uma mulher inatingível. Passou a ser uma mulher, igual a tantas outras.

Foto: tirada no interior da floresta junto ao rio mencionado.



20.3.17

Como o tempo passa...

Fez em janeiro, 42 anos que tirei esta foto, num quarto alugado em Cabinda, depois de ter vindo da mata do Maiombe.