A Tua Vontade é a Tua Vitória

19.8.20

Amigos para sempre!

É na prisão e no hospital que se vêm os melhores amigos. Haja o que houver nunca os abandonam.

Mas há um outro sítio que quem como eu lá andou, nunca os esquecemos... É na guerra!

Ali, quando as balas silvam ao nosso redor e vemos um camarada em perigo, tudo se esquece, até o perigo de ser atingido por uma bala e vai-se ajudar esse amigo.
Quantos foram salvos pela ação de quem coloca o peito às balas para os defender.

Felizmente nunca tive um momento destes, mas sabíamos que podíamos contar uns com os outros se essa situação surgisse.

Acabada a guerra militar, seguiu-se uma guerra civil, onde milhares de pessoas foram estropiados e milhares obrigados a fugir levando só a roupa que tinham no corpo e, enfrentando o perigo, foram rumo à África do Sul.

Quem muito fala e lá não esteve, o que dizem resvala na couraça da minha indiferença e como disse um profeta: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (dizem)».

Este amigo ficou, além do que deixou para trás como muitos de nós, sem as lembranças de uma vida, as fotos.

Para ti amigo Joao Cruz, as fotos que de ti tenho e uma do Joaquim Quelhas, daqueles momentos que passamos em Tando-Zinze e cidade de Cabinda, nos longínquos anos 74/75. Uma delas, já no adeus ao nosso quartel, com os caixotes a serem preparados para a partida.

Uma camaradagem que não acaba e nunca acabará.

Estivemos juntos naquela floresta do Maiombe.


Cabinda oyé!

6.8.20

A Cura

Tando-Zinze - 1974

No corpo começou a aparecer várias chagas com pus. Tudo foi tentado pelos nossos enfermeiros mas não havia melhoras. A roupa estava sempre suja daquele líquido que saía da pele e lhe molhava o camuflado. Curiosamente a maior incidência era nas costas.

Um dia vamos até à aldeia de Tchinguinguili. Um autóctone repara naquelas chagas. Verifica e diz: meu furriel, você ao deitar pega em argila misture com um pouco de vinho branco e passe pelo corpo. Assim fizemos. Enquanto este nosso camarada estava de bruços, passávamos a mistura pelo corpo, o vinho evaporava e a argila ficava. Enfiava uma t-shirt e adormecia assim. Fizemos isto durante uma semana, e as chagas secaram.

Nunca mais teve esse problema.

Aqui está ele, sentado, comigo e um alferes, num quarto em Cabinda que alugamos depois de termos saído de Tando-Zinze em dezembro de 1974, o furriel Cruz.

2.8.20

Maiombe - o Paraíso na terra

Em Cabinda, o 'Bar Girassol' era ponto de encontro de todos nós. Perto, o mar. A areia era 'negra' devido às fortes correntes marítimas vindas do sul que arrastam o aluvião da foz do Rio Zaire. Ao largo, as plataformas bombeavam o 'ouro negro' que saía das profundezas do oceano.

O calor da noite era propício ao calor dos corpos e, naquelas areias, muito amor se fez ao som das ondas que, mansamente, beijavam a areia com doçura.

Cabinda era uma cidade pequena mas muito arejada. Não faltavam lá recantos, onde a tropa se 'perdia' em noites de bebedeiras e prazer. Onde há tropa, há sempre um séquito de meretrizes que os acompanham, já no tempo do Imperio Romano assim era.

As noites quentes e húmidas, eram compensadas com o barulho das ventoinhas que traziam um pouco de fresco ao corpo que dormindo como tinha nascido, o suor escorria. De manhã acordava-se e não se sabia como, com o lençol até ao pescoço.

Depois do MVL (Movimento Viaturas Logístico) que fazia o abastecimento ao quartel, era o regresso à floresta do Maiombe.

A beleza luxuriante daquela floresta era de cortar a respiração. O seu despertar com a névoa subindo aos primeiros raios de sol, criava um misto de admiração e surpresa, como o cosmos tinha feito do 'Caos' o que de mais de belo o nosso planeta tem, as suas florestas. Ouviam-se os primeiros pássaros no despertar daquele imenso 'mar' vegetal.

No rio que percorria a aldeia, embora fossem as mulheres que mais ali trabalhavam nas pequenas roças que tinham, velhos pescadores tentavam pescar. Tudo era feito nas calmas, no silêncio dos dias, onde o astro-rei é que mandava no tempo.

A floresta era palco de muitos animais exóticos, o papagaio era rei e senhor dos ares.

As suas águas cristalinas, os recantos onde as belas cabindas se banhavam em cascatas com reflexos do sol, os seus risos cristalinos, o debruçar da vegetação sobre as suas margens, tornavam todo aquele cenário um local idílico, onde o rio, a floresta e as suas gentes, faziam daquele lugar o último paraíso da terra.

foto:: quadro da pintora Josefa Moura intitulado 'Cabinda'

20.1.20

Curso de minas e armadilhas

28 de fevereiro de 1974

Enquanto escrevia para Luanda dizendo que tinha ido a Cabinda levando um grupo de combate e que partiria no dia seguinte para Miconge para onde fora destacado (Miconge era na época, um local muito flagelado pela artilharia inimiga), voava para Luanda, onde iria tirar o curso de minas e armadilhas.

Luanda, minha cidade é linda, é de bem querer, a minha cidade é linda, hei-de amá-la até morrer. Na altura Luanda seria o meu cemitério. Os ventos da história mudaram o curso dos acontecimentos…

Nesse curso aprendi tudo o que era minas e armadilhas. Efeitos e consequências. Como lidar no mato com possíveis fios atravessando a picada, o sentir por baixo do pé o click caraterístico de ter acionado uma mina… e no fim do curso teríamos que apresentar uma armadilha da nossa competência. A minha armadilha era uma caixa de um dentífrico onde o dentífrico seria um explosivo ligado por fios à tampa da caixa. Mal abria a caixa, os fios faziam contacto e detonava o explosivo. Hoje parece cruel, mas na época era a guerra e não se pode estar agora com moralismos bacocos, ou eram eles ou nós. "A Guerra é a Guerra" como bem diz Fausto Bordalo Dias.

Findo o curso fiquei nos Adidos à espera de embarque para Cabinda. Um dia ao apresentar o grupo ao Comandante dei um passo à Comando que até o Comandante que estava perto de mim teve que recuar. Chegou-se ao pé do meu ouvido e perguntou: «Nosso Furriel, você esteve numa tropa especial?» - Sim meu Comandante, estive nos Comandos - «Para a próxima dê o passo à tropa normal que aqui não há Comandos». Até suei.

Andei por ali umas semanas e admirava muito não ser chamado para embarcar para Cabinda, mas como estava na minha cidade, quanto mais tarde melhor.

Um primeiro-sargento de tanto me ver, perguntou-me a razão de lá estar há tanto tempo. Expliquei a razão e ele perguntou-me se tinha entregado a guia de marcha. A guia de marcha? Não - respondi eu. Pois tinha-me esquecido de entregar a guia e no dia 20 de março de 1974, apanho o avião para Cabinda, de volta ao Maiombe, a Tando Zinze.

foto sargento Maurício:

Eu, (?) e Pinto, no quartel de Tando-Zinze.

15.1.20

A Última Noite

Passeava absorto nos seus pensamentos. Ia muitas vezes, sozinho, por aquele trilho de terra vermelha. Ladeando o caminho, de cor clara, as limbas, árvores de grande porte que podem atingir a altura de 50 metros, predominavam. Os cheiros da floresta tropical, os sons da fauna que mal se via tal o emaranhado de cipós, de ramos entrelaçados que impediam a sua visualização sem esforço, eram uma bênção da natureza. Estava no Maiombe.

O trilho ia dar ao rio que corria paralelo à aldeia de Tchinguinguili. Senta-se e vê-a. Compenetrada na sua tarefa, não se apercebe que estava a ser observada. Lavava ali a roupa naquele rio de água cálida e cristalina que, em certos sítios, caía em cascata, local onde as nativas tomavam banho.

O seu corpo luzidio, estava seminu. O cabelo arranjado, um olhar aberto, os dentes alvos, um corpo de gazela. Cantarolava uma cantiga em ibinda, língua natural do povo de Cabinda.

Ela, de repente, sente que está a ser observada. Olham olhos nos olhos e foi como se ali, algo tivesse ligado os olhares. Houve uma empatia imediata entre os dois.

Pegando na trouxa de roupa, dirige-se para a povoação. Ele, fica ainda ali por momentos, como se aquela aparição tivesse sido um cometa que tivesse passado e deixasse rasto da sua luz.

Volta a vê-la tempos depois. O coração dele transbordava de alegria por a ver de novo. Não sabia quem era, o seu nome, se casada, se solteira. Viria a saber depois. Era casada, mas o marido há muito que não a procurava. Passava os dias bêbado com o maruvo (bebida alcoólica resultante da seiva das palmeiras), na companhia dos amigos.

E iam-se encontrando, aqui e ali, até que um dia tiveram mais um tempo juntos. Num local idílico, ali se beijaram. O mundo era só deles, nada mais existia.

O tempo da comissão estava a acabar. Em breve ele voltaria para a sua unidade e regressaria à procedência.

Resolveram encontrar-se numa noite perto do local onde se tinham visto pela primeira vez. O homem com a bebedeira dormia até tarde, nem notaria a falta dela.

A noite estava linda. Ela, vestida com o traje típico, com a esteira, aguardava-o. Ele, de camuflado, levava um cobertor que as noites no Maiombe são húmidas e frescas.

Deitaram-se sob a luz das estrelas. Amaram-se como se não existisse amanhã. Sem preconceitos ou tabus, o amor pelo amor. Adormeceram exaustos.

O sol vai penetrando nas copas das árvores e desperta-os. A mão dele estava sobre o peito daquela mulher. Os olhos dela pareciam estrelas que tinham caído do céu e ali tinham ficado. Foram até ao rio. Banharam-se, mas o tempo urgia. Vestiram-se. Ela com a mão faz um débil movimento, ele, com o olhar, diz-lhe … Adeus!


Este conto é ficção. Qualquer semelhança com factos ou situações da vida real, é mera coincidência.