Depois de ter entrado na tropa em janeiro de 1973, foi em fevereiro de 1975 que na cidade de Cabinda, passei à disponibilidade.
Fui dos últimos a deixar a companhia pois era o responsável pelo armamento.
Muitas patrulhas fizeram estas botas no Maiombe. Patrulhas a pé, por charcos, por lama, em noites dormidas encostado a uma árvore, envolto no poncho, pois as noites na floresta eram agrestes. Raramente eram tiradas pois, a qualquer momento, podíamos ser atacados e tanto podíamos estar com as calças na mão, como sem calçado nos pés. Um soldado se tiver que morrer, morre calçado.
Noites e dias terríveis que me calejaram. Não podíamos fazer fogo, comia-se rações de reserva, e o famoso quinino que colocávamos no cantil, quando o tínhamos que encher com água 'manhosa' de um charco qualquer.
Em fevereiro pousei as minhas botas no alpendre da janela em Cabinda e tirei esta foto.
No dia seguinte já andava de sapatos.
Destas botas ficaram a recordação, dos muitos caminhos e km percorridos.
2.3.23
7.4.21
O Preso
Depois de sair de Tando-Zinze em dezembro de 74, fiquei a fazer o espólio da companhia no Batalhão em Cabinda, já que era responsável do material de guerra, juntamente com o nosso 1° sargento na área da secretaria, o alferes que era do meu grupo de combate e o responsável dos transportes, o furriel João Cruz.
O B. Caç.11 estava em polvorosa. Era já o desmantelamento das companhias afetas a este Batalhão, que se afadigavam num constante reboliço, pois quanto mais rapidamente se resolvessem os problemas referentes às companhias, mais depressa se passava à 'peluda'.
Estava de sargento de dia ou de guarda, já não diferencio a função de cada um.
Tínhamos presos no Batalhão, mas dentro deles, havia um que tinha sido castigado por uma coisa de somenos importância.
Pediu-me para que naquele fim-de-semana, pudesse ir ter com a família, embora caucasiano, era natural de Cabinda. Eh pá, tudo bem, mas atenção não vás para o Girassol (o mais famoso bar junto à praia).
Tive azar. Foi mesmo para ali que ele foi. Foi lá visto pelo comandante do Batalhão e claro, processo em cima do sargento que era eu. Felizmente não deu em nada, porque todo o Batalhão tinha coisas mais importantes para tratar que um simples fim-de-semana de um preso autorizado pelo sargento em serviço.
Em fevereiro de 1975 embarcava no Noratlas (barriga de ginguba) para Luanda em fim de comissão.
Foto: os que referi, relativamente perto do bar mencionado
No primeiro degrau, o nosso 1°, segundo degrau, eu e o alferes, no cimo, o Cruz.
O B. Caç.11 estava em polvorosa. Era já o desmantelamento das companhias afetas a este Batalhão, que se afadigavam num constante reboliço, pois quanto mais rapidamente se resolvessem os problemas referentes às companhias, mais depressa se passava à 'peluda'.
Estava de sargento de dia ou de guarda, já não diferencio a função de cada um.
Tínhamos presos no Batalhão, mas dentro deles, havia um que tinha sido castigado por uma coisa de somenos importância.
Pediu-me para que naquele fim-de-semana, pudesse ir ter com a família, embora caucasiano, era natural de Cabinda. Eh pá, tudo bem, mas atenção não vás para o Girassol (o mais famoso bar junto à praia).
Tive azar. Foi mesmo para ali que ele foi. Foi lá visto pelo comandante do Batalhão e claro, processo em cima do sargento que era eu. Felizmente não deu em nada, porque todo o Batalhão tinha coisas mais importantes para tratar que um simples fim-de-semana de um preso autorizado pelo sargento em serviço.
Em fevereiro de 1975 embarcava no Noratlas (barriga de ginguba) para Luanda em fim de comissão.
Foto: os que referi, relativamente perto do bar mencionado
No primeiro degrau, o nosso 1°, segundo degrau, eu e o alferes, no cimo, o Cruz.
15.12.20
Natal Tando-Zinze - 1973
Era a primeira vez que passava o Natal longe da família.
Chegado a Tando-Zinze a 13 de dezembro, seria ali junto à floresta do Maiombe que, sem qualquer presença feminina, só nós camaradas de armas, iríamos passar tanto o Natal como o fim de ano.
Tinha só onze dias de mato. Tudo ainda era estranho para mim.
Quando cheguei, um furriel 'velhinho', o camarada Ramos , quis trocar as divisas da furriel comigo. As dele já velhas e desgastadas, as minhas novinhas. Não aceitei e lembro-me de lhe ter dito, que hoje estão novas, amanhã estarão como as tuas. Um grande camarada o Ramos.
Na tropa, na classe de sargentos só tive aborrecimentos sérios com um. Feitios incompatíveis que não escondíamos. Mais valia assim. Felizmente nunca fiz uma patrulha com ele.
Outro houve que me quis dar um tiro, mas éramos amigos. Havia uma razão forte para o procedimento dele para comigo, era por amizade e o querer ver livre daquela dependência que ele ia tendo esse momento tresloucado. E em dezembro de 1973, com o cheiro da clorofila da floresta, numa mesa onde o amigo Moreira, madeireiro, era nosso convidado, passei o meu primeiro Natal na tropa.
Iria passar um segundo Natal, mas este já em Cabinda e desse não tenho qualquer recordação.
Foto: natal de 1973. Sou o primeiro da esquerda.
Chegado a Tando-Zinze a 13 de dezembro, seria ali junto à floresta do Maiombe que, sem qualquer presença feminina, só nós camaradas de armas, iríamos passar tanto o Natal como o fim de ano.
Tinha só onze dias de mato. Tudo ainda era estranho para mim.
Quando cheguei, um furriel 'velhinho', o camarada Ramos , quis trocar as divisas da furriel comigo. As dele já velhas e desgastadas, as minhas novinhas. Não aceitei e lembro-me de lhe ter dito, que hoje estão novas, amanhã estarão como as tuas. Um grande camarada o Ramos.
Na tropa, na classe de sargentos só tive aborrecimentos sérios com um. Feitios incompatíveis que não escondíamos. Mais valia assim. Felizmente nunca fiz uma patrulha com ele.
Outro houve que me quis dar um tiro, mas éramos amigos. Havia uma razão forte para o procedimento dele para comigo, era por amizade e o querer ver livre daquela dependência que ele ia tendo esse momento tresloucado. E em dezembro de 1973, com o cheiro da clorofila da floresta, numa mesa onde o amigo Moreira, madeireiro, era nosso convidado, passei o meu primeiro Natal na tropa.
Iria passar um segundo Natal, mas este já em Cabinda e desse não tenho qualquer recordação.
Foto: natal de 1973. Sou o primeiro da esquerda.
9.12.20
Noites sem fim...
Poncho molhado, olhar na tropa e na mata
Vai-se no Maiombe, devagar, picada afora
A chuva encharca, está chovendo que se farta
Dói dentro d'alma, dói até ao raiar da aurora
(verso alterado do tema 'Poncho molhado')
Dentro da mochila, rações de combate para quatro dias. A rede do mosquiteiro à volta do pescoço, o poncho, a minha 'amante' que não me largava, a minha G3, o cantil com água e comprimidos contra o paludismo (Daraprim).
Sai o grupo de combate do quartel. Embrenha-se na floresta. Charcos onde as fêmeas dos mosquitos ovipositam, para mais uma geração de geradores de paludismo, são uma constante. O sol não entra, a água não evapora. Cheiro pestilento da água estagnada, os mosquitos volteiam, entram até na rede, é o miruí.
A noite cai. A chuva desaba fortemente. Não há fogo para aquecer a ração de combate. Come-se diretamente da lata. Forma-se os horários de vigília, nunca por mim olvidado para a segurança de todos.
Junto às árvores a tropa dorme. Enrosco-me no poncho. Está frio, e a chuva que não deixa de cair.
Um último olhar e adormeço, sempre em alerta ao mais pequeno ruído.
E no romper da aurora, há que levantar e prosseguir a patrulha até ao destino, um local qualquer perdido na lonjura daquela floresta que tanto marcou, quem pelo Maiombe passou!

foto: no interior do Maiombe
Dentro da mochila, rações de combate para quatro dias. A rede do mosquiteiro à volta do pescoço, o poncho, a minha 'amante' que não me largava, a minha G3, o cantil com água e comprimidos contra o paludismo (Daraprim).
Sai o grupo de combate do quartel. Embrenha-se na floresta. Charcos onde as fêmeas dos mosquitos ovipositam, para mais uma geração de geradores de paludismo, são uma constante. O sol não entra, a água não evapora. Cheiro pestilento da água estagnada, os mosquitos volteiam, entram até na rede, é o miruí.
A noite cai. A chuva desaba fortemente. Não há fogo para aquecer a ração de combate. Come-se diretamente da lata. Forma-se os horários de vigília, nunca por mim olvidado para a segurança de todos.
Junto às árvores a tropa dorme. Enrosco-me no poncho. Está frio, e a chuva que não deixa de cair.
Um último olhar e adormeço, sempre em alerta ao mais pequeno ruído.
E no romper da aurora, há que levantar e prosseguir a patrulha até ao destino, um local qualquer perdido na lonjura daquela floresta que tanto marcou, quem pelo Maiombe passou!
24.11.20
Mulher Cabindesa
(prestei o meu serviço militar em Cabinda de dezembro de 1973 a fevereiro de 1975)
Mulher de Cabinda
Na família cabinda, a principal figura é a mãe, pois é ela que trabalha a terra - fonte básica de sustento da família, e gera os filhos que aumentam o poder do clã. As filhas são a base da continuidade e propagação do grupo e base da sustentação deste pelo amanho da terra.
O homem dedica-se à caça, ao derrube de árvores de maior porte e à guerra. O Cabinda considera a actividade agrícola aberrante da sua dignidade.
Quando saía em patrulha, via muitas cabindas com o filho às costas e feixes de lenha à cabeça. Descalça, ali ia levando a lenha para o seu habitáculo para fazer a comida. Ainda longe, sentia o trepidar da viatura e afastava-se para a berma, tal era a sensibilidade que os pés tinham.
Se o meu Unimog ia na direção da aldeia, mandava-a subir e deixava-a na aldeia. Era o mínimo que podia fazer, pois para além de carregarem a lenha, cozinhavam, cuidavam dos filhos, lavavam a roupa e, como referi, amanhavam a terra.
Mas também tinham tempo para elas, seja em que continente for, a mulher é vaidosa por natureza.
Eram lindas as mulheres cabindesas!
Mulher de Cabinda
Na família cabinda, a principal figura é a mãe, pois é ela que trabalha a terra - fonte básica de sustento da família, e gera os filhos que aumentam o poder do clã. As filhas são a base da continuidade e propagação do grupo e base da sustentação deste pelo amanho da terra.
O homem dedica-se à caça, ao derrube de árvores de maior porte e à guerra. O Cabinda considera a actividade agrícola aberrante da sua dignidade.
Quando saía em patrulha, via muitas cabindas com o filho às costas e feixes de lenha à cabeça. Descalça, ali ia levando a lenha para o seu habitáculo para fazer a comida. Ainda longe, sentia o trepidar da viatura e afastava-se para a berma, tal era a sensibilidade que os pés tinham.
Se o meu Unimog ia na direção da aldeia, mandava-a subir e deixava-a na aldeia. Era o mínimo que podia fazer, pois para além de carregarem a lenha, cozinhavam, cuidavam dos filhos, lavavam a roupa e, como referi, amanhavam a terra.
Mas também tinham tempo para elas, seja em que continente for, a mulher é vaidosa por natureza.
Eram lindas as mulheres cabindesas!
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