Quando em Tando-Zinze saía em patrulha por alguns dias, observava o comportamento do meu grupo de combate. Quase todos eram naturais de Cabinda. Se estivessem descontraídos, era sinal de que a patrulha decorreria sem sobressaltos; se mostrassem alguma apreensão, algo poderia correr mal.
Dado que as picadas eram estreitas, quase sempre levava um cabo que, com um ferro comprido, ia sondando o terreno aqui e ali para garantir que não houvesse minas escondidas.
Ao cabo que acompanhava, chamávamo-lo de “arrebenta-minas”, e a razão era simples: o homem tinha os pés virados para fora, ocupando assim mais espaço. Se ele passasse sem detonar nenhuma mina, nós também poderíamos seguir com confiança.
Hoje em dia, pode parecer engraçado, mas naquela época todo o cuidado era pouco.
A esse nosso cabo, que inconscientemente nos protegia, devemos muito por ainda estarmos aqui. Nunca enfrentámos problemas, mas quem sabe se um dia… não encontrássemos uma mina pelo caminho e ele estava lá.
3.3.24
10.3.23
O tiro que não dei
Tínhamos sido largados numa picada, para quatro dias em patrulha pela floresta do Maiombe. O saco com rações de combate, uma manta, poncho, uma esteira, caso tivesse bom tempo e não dormir encostado a uma árvore. As tiras dos sacos davam-nos cabo dos ombros. O meu grupo lá seguiu caminho.
Foi uma patrulha terrível. Devido ao mau tempo pouco dormimos, não havendo povoações pelo trajeto, teríamos que comer e beber o que levávamos. Eu raramente comia. Aquilo dava-me cabo do estômago.
Ao fim de dois dias já a moral estava em baixo. A irritabilidade era uma constante. Ao menos do IN nem sombras, mas cada pisar de ramo era um sobressalto. O nosso pisteiro à frente ia picando o terreno, para ver se havia existência de minas. Chamava-lhe na brincadeira, de "rebenta-minas" pois os pés viravam para fora, e o espaço ocupado pelas botas eram maiores e se mina houvesse...!
Finda a patrulha, desesperados por tantos dias passados e bem sofridos no mato, mando o radiotelegrafista ligar para o quartel a fim de nos recolher.
Passa uma hora, duas, três e nada de Unimog.
A noite estava a cair e à noite, não podíamos ser recolhidos.
Até que finalmente chega. Pergunto por tão demora na recolha e ele deu uma desculpa que não interessa.
Estava tão desesperado que apontei-lhe a G3. A minha vontade era dar-lhe um tiro, mas fiquei-me pela intenção. Que nunca mais tal viesse a acontecer.
Chegado ao quartel, o banho retemperador, a comida quente, o descanso merecido e, no dia seguinte, estava de sargento de dia.
Aqui no Maiombe, numa patrulha mais suave.
Foi uma patrulha terrível. Devido ao mau tempo pouco dormimos, não havendo povoações pelo trajeto, teríamos que comer e beber o que levávamos. Eu raramente comia. Aquilo dava-me cabo do estômago.
Ao fim de dois dias já a moral estava em baixo. A irritabilidade era uma constante. Ao menos do IN nem sombras, mas cada pisar de ramo era um sobressalto. O nosso pisteiro à frente ia picando o terreno, para ver se havia existência de minas. Chamava-lhe na brincadeira, de "rebenta-minas" pois os pés viravam para fora, e o espaço ocupado pelas botas eram maiores e se mina houvesse...!
Finda a patrulha, desesperados por tantos dias passados e bem sofridos no mato, mando o radiotelegrafista ligar para o quartel a fim de nos recolher.
Passa uma hora, duas, três e nada de Unimog.
A noite estava a cair e à noite, não podíamos ser recolhidos.
Até que finalmente chega. Pergunto por tão demora na recolha e ele deu uma desculpa que não interessa.
Estava tão desesperado que apontei-lhe a G3. A minha vontade era dar-lhe um tiro, mas fiquei-me pela intenção. Que nunca mais tal viesse a acontecer.
Chegado ao quartel, o banho retemperador, a comida quente, o descanso merecido e, no dia seguinte, estava de sargento de dia.
Aqui no Maiombe, numa patrulha mais suave.
8.3.23
O acidente mora ao lado!
Raramente as patrulhas na floresta do Maiombe eram feitas de Unimog. As picadas eram estreitas, muito ramo e lama devido às intensas chuvadas que caiam naquela floresta onde o sol mal penetrava, devido à altura e copas das árvores.
Éramos pasto ideal para o mosquito que nos afetava quando na bermas pernoitávamos.
Muitas vezes éramos deixados num certo local e o resto da patrulha era feita a pé. No regresso era contactado o quartel para nos recolher.
Naquela semana, a patrulha seria no nosso "burro de carga", o Unimog.
Eu à frente e o meu grupo de combate sentado nos bancos laterais, com a arma pronta, lá seguimos.
Tinha chovido na véspera, o normal naquelas paragens. O terreno toda enlameado. Charcos que não mostravam o que por baixo estava. Tanto podia ser nada, como um buraco profundo.
O condutor devia pensar que era o Fittipaldi. Conduzia naquela estreita picada, como se estivesse no autódromo. Avisei-o de que não podia continuar assim, pois colocava a nossa vida em perigo. Diz ele: Parece que o meu furriel está com medo! Não, não é medo. É respeito por quem aqui vai, e é favor moderar a velocidade.
Fez orelhas moucas e continuou. Estava preparado para saltar se o Unimog virasse, assim como os soldados, pois viam que o sujeito não abrandava. Até que num charco, o Unimog ia-se voltando. Foi por um triz. O motorista parou a viatura a transpirar. O meu furriel tem razão - disse!
E até ao destino, teve o cuidado de ir devagar, não fosse o diabo tecê-las.
No fim da patrulha, teve o castigo merecido.
Não brinco em serviço!
Aqui numa dessas patrulhas.
Éramos pasto ideal para o mosquito que nos afetava quando na bermas pernoitávamos.
Muitas vezes éramos deixados num certo local e o resto da patrulha era feita a pé. No regresso era contactado o quartel para nos recolher.
Naquela semana, a patrulha seria no nosso "burro de carga", o Unimog.
Eu à frente e o meu grupo de combate sentado nos bancos laterais, com a arma pronta, lá seguimos.
Tinha chovido na véspera, o normal naquelas paragens. O terreno toda enlameado. Charcos que não mostravam o que por baixo estava. Tanto podia ser nada, como um buraco profundo.
O condutor devia pensar que era o Fittipaldi. Conduzia naquela estreita picada, como se estivesse no autódromo. Avisei-o de que não podia continuar assim, pois colocava a nossa vida em perigo. Diz ele: Parece que o meu furriel está com medo! Não, não é medo. É respeito por quem aqui vai, e é favor moderar a velocidade.
Fez orelhas moucas e continuou. Estava preparado para saltar se o Unimog virasse, assim como os soldados, pois viam que o sujeito não abrandava. Até que num charco, o Unimog ia-se voltando. Foi por um triz. O motorista parou a viatura a transpirar. O meu furriel tem razão - disse!
E até ao destino, teve o cuidado de ir devagar, não fosse o diabo tecê-las.
No fim da patrulha, teve o castigo merecido.
Não brinco em serviço!
Aqui numa dessas patrulhas.
6.3.23
A carreira de tiro
O nosso quartel, embora perto houvesse uma povoação, estava isolado e com arame farpado. Tínhamos postos de vigia que, quando estávamos de sargento de guarda, durante a noite percorríamos os postos, para ver se os vigias estavam em alerta e não a dormir, como de vez em quando acontecia.
A vida dentro do quartel, fora as patrulhas e o MVL a Cabinda, era sempre a mesma. Formatura, atribuição de funções e cada um seguia o seu caminho.
A poucos metros do quartel, mas fora do perímetro, tínhamos o nosso campo de tiro.
Uma barreira natural de terra vermelha, colocava-se ali uma mira de papel presa a um pau, e há que acertar o mais possível no alvo. Isso com a G3. No entanto fazíamos também fogo com a metralhadora HK21 (tinha no meu quarto virado para a entrada do quartel, em cima de uma mesa, uma destas pronta a disparar), essa era acertar no morro, sem mira possível mas dentro de uma zona limitada.
Aqui estou eu a municiar um furriel como eu, (depois trocávamos de posição) numa sessão de tiro com a HK21.
A vida dentro do quartel, fora as patrulhas e o MVL a Cabinda, era sempre a mesma. Formatura, atribuição de funções e cada um seguia o seu caminho.
A poucos metros do quartel, mas fora do perímetro, tínhamos o nosso campo de tiro.
Uma barreira natural de terra vermelha, colocava-se ali uma mira de papel presa a um pau, e há que acertar o mais possível no alvo. Isso com a G3. No entanto fazíamos também fogo com a metralhadora HK21 (tinha no meu quarto virado para a entrada do quartel, em cima de uma mesa, uma destas pronta a disparar), essa era acertar no morro, sem mira possível mas dentro de uma zona limitada.
Aqui estou eu a municiar um furriel como eu, (depois trocávamos de posição) numa sessão de tiro com a HK21.
2.3.23
Foi há 48 anos...
Depois de ter entrado na tropa em janeiro de 1973, foi em fevereiro de 1975 que na cidade de Cabinda, passei à disponibilidade.
Fui dos últimos a deixar a companhia pois era o responsável pelo armamento.
Muitas patrulhas fizeram estas botas no Maiombe. Patrulhas a pé, por charcos, por lama, em noites dormidas encostado a uma árvore, envolto no poncho, pois as noites na floresta eram agrestes. Raramente eram tiradas pois, a qualquer momento, podíamos ser atacados e tanto podíamos estar com as calças na mão, como sem calçado nos pés. Um soldado se tiver que morrer, morre calçado.
Noites e dias terríveis que me calejaram. Não podíamos fazer fogo, comia-se rações de reserva, e o famoso quinino que colocávamos no cantil, quando o tínhamos que encher com água 'manhosa' de um charco qualquer.
Em fevereiro pousei as minhas botas no alpendre da janela em Cabinda e tirei esta foto.
No dia seguinte já andava de sapatos.
Destas botas ficaram a recordação, dos muitos caminhos e km percorridos.
Fui dos últimos a deixar a companhia pois era o responsável pelo armamento.
Muitas patrulhas fizeram estas botas no Maiombe. Patrulhas a pé, por charcos, por lama, em noites dormidas encostado a uma árvore, envolto no poncho, pois as noites na floresta eram agrestes. Raramente eram tiradas pois, a qualquer momento, podíamos ser atacados e tanto podíamos estar com as calças na mão, como sem calçado nos pés. Um soldado se tiver que morrer, morre calçado.
Noites e dias terríveis que me calejaram. Não podíamos fazer fogo, comia-se rações de reserva, e o famoso quinino que colocávamos no cantil, quando o tínhamos que encher com água 'manhosa' de um charco qualquer.
Em fevereiro pousei as minhas botas no alpendre da janela em Cabinda e tirei esta foto.
No dia seguinte já andava de sapatos.
Destas botas ficaram a recordação, dos muitos caminhos e km percorridos.
7.4.21
O Preso
Depois de sair de Tando-Zinze em dezembro de 74, fiquei a fazer o espólio da companhia no Batalhão em Cabinda, já que era responsável do material de guerra, juntamente com o nosso 1° sargento na área da secretaria, o alferes que era do meu grupo de combate e o responsável dos transportes, o furriel João Cruz.
O B. Caç.11 estava em polvorosa. Era já o desmantelamento das companhias afetas a este Batalhão, que se afadigavam num constante reboliço, pois quanto mais rapidamente se resolvessem os problemas referentes às companhias, mais depressa se passava à 'peluda'.
Estava de sargento de dia ou de guarda, já não diferencio a função de cada um.
Tínhamos presos no Batalhão, mas dentro deles, havia um que tinha sido castigado por uma coisa de somenos importância.
Pediu-me para que naquele fim-de-semana, pudesse ir ter com a família, embora caucasiano, era natural de Cabinda. Eh pá, tudo bem, mas atenção não vás para o Girassol (o mais famoso bar junto à praia).
Tive azar. Foi mesmo para ali que ele foi. Foi lá visto pelo comandante do Batalhão e claro, processo em cima do sargento que era eu. Felizmente não deu em nada, porque todo o Batalhão tinha coisas mais importantes para tratar que um simples fim-de-semana de um preso autorizado pelo sargento em serviço.
Em fevereiro de 1975 embarcava no Noratlas (barriga de ginguba) para Luanda em fim de comissão.
Foto: os que referi, relativamente perto do bar mencionado
No primeiro degrau, o nosso 1°, segundo degrau, eu e o alferes, no cimo, o Cruz.
O B. Caç.11 estava em polvorosa. Era já o desmantelamento das companhias afetas a este Batalhão, que se afadigavam num constante reboliço, pois quanto mais rapidamente se resolvessem os problemas referentes às companhias, mais depressa se passava à 'peluda'.
Estava de sargento de dia ou de guarda, já não diferencio a função de cada um.
Tínhamos presos no Batalhão, mas dentro deles, havia um que tinha sido castigado por uma coisa de somenos importância.
Pediu-me para que naquele fim-de-semana, pudesse ir ter com a família, embora caucasiano, era natural de Cabinda. Eh pá, tudo bem, mas atenção não vás para o Girassol (o mais famoso bar junto à praia).
Tive azar. Foi mesmo para ali que ele foi. Foi lá visto pelo comandante do Batalhão e claro, processo em cima do sargento que era eu. Felizmente não deu em nada, porque todo o Batalhão tinha coisas mais importantes para tratar que um simples fim-de-semana de um preso autorizado pelo sargento em serviço.
Em fevereiro de 1975 embarcava no Noratlas (barriga de ginguba) para Luanda em fim de comissão.
Foto: os que referi, relativamente perto do bar mencionado
No primeiro degrau, o nosso 1°, segundo degrau, eu e o alferes, no cimo, o Cruz.
15.12.20
Natal Tando-Zinze - 1973
Era a primeira vez que passava o Natal longe da família.
Chegado a Tando-Zinze a 13 de dezembro, seria ali junto à floresta do Maiombe que, sem qualquer presença feminina, só nós camaradas de armas, iríamos passar tanto o Natal como o fim de ano.
Tinha só onze dias de mato. Tudo ainda era estranho para mim.
Quando cheguei, um furriel 'velhinho', o camarada Ramos , quis trocar as divisas da furriel comigo. As dele já velhas e desgastadas, as minhas novinhas. Não aceitei e lembro-me de lhe ter dito, que hoje estão novas, amanhã estarão como as tuas. Um grande camarada o Ramos.
Na tropa, na classe de sargentos só tive aborrecimentos sérios com um. Feitios incompatíveis que não escondíamos. Mais valia assim. Felizmente nunca fiz uma patrulha com ele.
Outro houve que me quis dar um tiro, mas éramos amigos. Havia uma razão forte para o procedimento dele para comigo, era por amizade e o querer ver livre daquela dependência que ele ia tendo esse momento tresloucado. E em dezembro de 1973, com o cheiro da clorofila da floresta, numa mesa onde o amigo Moreira, madeireiro, era nosso convidado, passei o meu primeiro Natal na tropa.
Iria passar um segundo Natal, mas este já em Cabinda e desse não tenho qualquer recordação.
Foto: natal de 1973. Sou o primeiro da esquerda.
Chegado a Tando-Zinze a 13 de dezembro, seria ali junto à floresta do Maiombe que, sem qualquer presença feminina, só nós camaradas de armas, iríamos passar tanto o Natal como o fim de ano.
Tinha só onze dias de mato. Tudo ainda era estranho para mim.
Quando cheguei, um furriel 'velhinho', o camarada Ramos , quis trocar as divisas da furriel comigo. As dele já velhas e desgastadas, as minhas novinhas. Não aceitei e lembro-me de lhe ter dito, que hoje estão novas, amanhã estarão como as tuas. Um grande camarada o Ramos.
Na tropa, na classe de sargentos só tive aborrecimentos sérios com um. Feitios incompatíveis que não escondíamos. Mais valia assim. Felizmente nunca fiz uma patrulha com ele.
Outro houve que me quis dar um tiro, mas éramos amigos. Havia uma razão forte para o procedimento dele para comigo, era por amizade e o querer ver livre daquela dependência que ele ia tendo esse momento tresloucado. E em dezembro de 1973, com o cheiro da clorofila da floresta, numa mesa onde o amigo Moreira, madeireiro, era nosso convidado, passei o meu primeiro Natal na tropa.
Iria passar um segundo Natal, mas este já em Cabinda e desse não tenho qualquer recordação.
Foto: natal de 1973. Sou o primeiro da esquerda.
9.12.20
Noites sem fim...
Poncho molhado, olhar na tropa e na mata
Vai-se no Maiombe, devagar, picada afora
A chuva encharca, está chovendo que se farta
Dói dentro d'alma, dói até ao raiar da aurora
(verso alterado do tema 'Poncho molhado')
Dentro da mochila, rações de combate para quatro dias. A rede do mosquiteiro à volta do pescoço, o poncho, a minha 'amante' que não me largava, a minha G3, o cantil com água e comprimidos contra o paludismo (Daraprim).
Sai o grupo de combate do quartel. Embrenha-se na floresta. Charcos onde as fêmeas dos mosquitos ovipositam, para mais uma geração de geradores de paludismo, são uma constante. O sol não entra, a água não evapora. Cheiro pestilento da água estagnada, os mosquitos volteiam, entram até na rede, é o miruí.
A noite cai. A chuva desaba fortemente. Não há fogo para aquecer a ração de combate. Come-se diretamente da lata. Forma-se os horários de vigília, nunca por mim olvidado para a segurança de todos.
Junto às árvores a tropa dorme. Enrosco-me no poncho. Está frio, e a chuva que não deixa de cair.
Um último olhar e adormeço, sempre em alerta ao mais pequeno ruído.
E no romper da aurora, há que levantar e prosseguir a patrulha até ao destino, um local qualquer perdido na lonjura daquela floresta que tanto marcou, quem pelo Maiombe passou!

foto: no interior do Maiombe
Dentro da mochila, rações de combate para quatro dias. A rede do mosquiteiro à volta do pescoço, o poncho, a minha 'amante' que não me largava, a minha G3, o cantil com água e comprimidos contra o paludismo (Daraprim).
Sai o grupo de combate do quartel. Embrenha-se na floresta. Charcos onde as fêmeas dos mosquitos ovipositam, para mais uma geração de geradores de paludismo, são uma constante. O sol não entra, a água não evapora. Cheiro pestilento da água estagnada, os mosquitos volteiam, entram até na rede, é o miruí.
A noite cai. A chuva desaba fortemente. Não há fogo para aquecer a ração de combate. Come-se diretamente da lata. Forma-se os horários de vigília, nunca por mim olvidado para a segurança de todos.
Junto às árvores a tropa dorme. Enrosco-me no poncho. Está frio, e a chuva que não deixa de cair.
Um último olhar e adormeço, sempre em alerta ao mais pequeno ruído.
E no romper da aurora, há que levantar e prosseguir a patrulha até ao destino, um local qualquer perdido na lonjura daquela floresta que tanto marcou, quem pelo Maiombe passou!
24.11.20
Mulher Cabindesa
(prestei o meu serviço militar em Cabinda de dezembro de 1973 a fevereiro de 1975)
Mulher de Cabinda
Na família cabinda, a principal figura é a mãe, pois é ela que trabalha a terra - fonte básica de sustento da família, e gera os filhos que aumentam o poder do clã. As filhas são a base da continuidade e propagação do grupo e base da sustentação deste pelo amanho da terra.
O homem dedica-se à caça, ao derrube de árvores de maior porte e à guerra. O Cabinda considera a actividade agrícola aberrante da sua dignidade.
Quando saía em patrulha, via muitas cabindas com o filho às costas e feixes de lenha à cabeça. Descalça, ali ia levando a lenha para o seu habitáculo para fazer a comida. Ainda longe, sentia o trepidar da viatura e afastava-se para a berma, tal era a sensibilidade que os pés tinham.
Se o meu Unimog ia na direção da aldeia, mandava-a subir e deixava-a na aldeia. Era o mínimo que podia fazer, pois para além de carregarem a lenha, cozinhavam, cuidavam dos filhos, lavavam a roupa e, como referi, amanhavam a terra.
Mas também tinham tempo para elas, seja em que continente for, a mulher é vaidosa por natureza.
Eram lindas as mulheres cabindesas!
Mulher de Cabinda
Na família cabinda, a principal figura é a mãe, pois é ela que trabalha a terra - fonte básica de sustento da família, e gera os filhos que aumentam o poder do clã. As filhas são a base da continuidade e propagação do grupo e base da sustentação deste pelo amanho da terra.
O homem dedica-se à caça, ao derrube de árvores de maior porte e à guerra. O Cabinda considera a actividade agrícola aberrante da sua dignidade.
Quando saía em patrulha, via muitas cabindas com o filho às costas e feixes de lenha à cabeça. Descalça, ali ia levando a lenha para o seu habitáculo para fazer a comida. Ainda longe, sentia o trepidar da viatura e afastava-se para a berma, tal era a sensibilidade que os pés tinham.
Se o meu Unimog ia na direção da aldeia, mandava-a subir e deixava-a na aldeia. Era o mínimo que podia fazer, pois para além de carregarem a lenha, cozinhavam, cuidavam dos filhos, lavavam a roupa e, como referi, amanhavam a terra.
Mas também tinham tempo para elas, seja em que continente for, a mulher é vaidosa por natureza.
Eram lindas as mulheres cabindesas!
27.8.20
Caio Guembo - 30 de maio de 1974
Estava em Tando-Zinze quando tive conhecimento deste ataque. A história que me contaram como o mesmo tinha ocorrido não corresponde à verdade dos factos. Como tal, e para que se conste como se passou, fiz diversas pesquisas e, com o auxílio de quem lá esteve presente, aqui fica para memórias futuras o rumo dos acontecimentos, dando na parte final os créditos devidos a quem me ajudou.
Das 05h20 às 06h00, elementos IN/MPLA, atacaram o aquartelamento de Caio Guembo, do Morro do Sul deste e a uma distância de 100/200 metros, utilizando grande potencial de fogos (RPG7, AK47, morteiro 60)*, causando às NT 4 mortos (2 Alferes, um 1º cabo** e um soldado), 3 feridos graves e 10 ligeiros. (1)
O ataque do MPLA a Caio Guembo foi dos acontecimentos mais violentos, vindo a ter interferência na vida militar futura do entrevistado.
Em 30 de Maio de 1974 o MPLA faz um ataque violento ao aquartelamento de Caio Guembo, com destruição de instalações, mortes e feridos, entre eles dois Alferes. O quartel, no que respeita a instalações, estava praticamente destruído, a Companhia ficou muito reduzida de pessoal e foi-lhe exigida a mesma operacionalidade. Põem para lá uma unidade de canhões sem recuo, uma unidade de não sei o quê, puseram para lá montes de unidades. Começou a haver divisão de comando, cada unidade leva o seu comando, torna-se pouco operacional. Nessa altura digo, basta! Comunico ao comando que quero ser ouvido, nas operações conjuntas programadas. (2)
A Comp. 5043 tinha um grupo de combate no Caio Guembo nesse ataque a reforçar, onde eu estive presente debaixo de fogo do IN, tinhamos a Companhia.sediada no Belize. Não chegaram a entrar no quartel, mas fomos atacados a cerca de 100 metros do mesmo, com fogo dirigido mais para onde dormiam os Alferes, eram 4 morreram dois. O Soldado morreu no depósito de material de guerra, que foi a primeira coisa que rebentou. (3)
Fui na coluna que foi ao Quartel buscar os seus caixões Posso dizer que foi das coisas que mais me impressionou, a maneira comovente como aquele quartel se despediu dos seus militares Foi arrepiante. (4)
Listagem dos mortos e feridos:
Mortos
2ª companhia
- Alferes Mil – Alcindo Vicente Neves
- Alferes Mil – António Azevedo Ferreira
** - 1º.Cabo Alfredo Coelho Lima, (mencionado por Fur.Mil.Correia da Silva, 2ª. Cª.Caç./Bat. Caç.4913/73.). Estava omisso nesta listagem do B.C. 4913
- Soldado Atirador – José Manuel da Silva
Feridos
1º sargento Inf. – Joaquim Dias Narciso
Furriel Miliciano – José Flávio de Jesus Almeida
Furriel Miliciano – Francisco José Palminha Azedo
Furriel Miliciano – José Carlos Simões das Neves
1º cabo mec. Auto – Egídio Paulo Correia Andrade
2ª Companhia
1º cabo atirador – Avelino Vieira Cabral
1º cabo escriturário – Manuel Luís Pereira
Soldado atirador – Manuel Jorge do Poço
Soldado atirador – Manuel Alberto Vieira Gonçalves
Soldado atirador – João Ribeiro Teixeira
Soldado Mecânico auto – Luís António Fernandes
Soldado atirador – Faustino Mateus Júnior
(nesta listagem constam 12 feridos e noutros locais consultados mencionam 14. No preâmbulo sobre o ataque, este Batalhão refere 13 feridos e o José Lopes idem)
Fontes consultadas:
* - informação de Correia José
(1) - Batalhão de Caçadores 4913
(2) - António Inácio Correia Nogueira (Tese e Anexos - Universidade Fernando Pessoa) in Capitães do Fim
Depoimentos
(3) - Antero Ferreira
(4) - Evaristo Rosa
Fotos:
- José Lopes
Depoimento de José Lopes - a foto onde eu estou na cadeira, não é no Caio mas sim no B.C.11 quando estávamos à espera de embarque. Foi a nossa única baixa. Foi naquela cadeira que ele (soldado) foi alvejado quando já não previamos nada disto.
O meu muito Obrigado a todos!
Das 05h20 às 06h00, elementos IN/MPLA, atacaram o aquartelamento de Caio Guembo, do Morro do Sul deste e a uma distância de 100/200 metros, utilizando grande potencial de fogos (RPG7, AK47, morteiro 60)*, causando às NT 4 mortos (2 Alferes, um 1º cabo** e um soldado), 3 feridos graves e 10 ligeiros. (1)
O ataque do MPLA a Caio Guembo foi dos acontecimentos mais violentos, vindo a ter interferência na vida militar futura do entrevistado.
Em 30 de Maio de 1974 o MPLA faz um ataque violento ao aquartelamento de Caio Guembo, com destruição de instalações, mortes e feridos, entre eles dois Alferes. O quartel, no que respeita a instalações, estava praticamente destruído, a Companhia ficou muito reduzida de pessoal e foi-lhe exigida a mesma operacionalidade. Põem para lá uma unidade de canhões sem recuo, uma unidade de não sei o quê, puseram para lá montes de unidades. Começou a haver divisão de comando, cada unidade leva o seu comando, torna-se pouco operacional. Nessa altura digo, basta! Comunico ao comando que quero ser ouvido, nas operações conjuntas programadas. (2)
A Comp. 5043 tinha um grupo de combate no Caio Guembo nesse ataque a reforçar, onde eu estive presente debaixo de fogo do IN, tinhamos a Companhia.sediada no Belize. Não chegaram a entrar no quartel, mas fomos atacados a cerca de 100 metros do mesmo, com fogo dirigido mais para onde dormiam os Alferes, eram 4 morreram dois. O Soldado morreu no depósito de material de guerra, que foi a primeira coisa que rebentou. (3)
Fui na coluna que foi ao Quartel buscar os seus caixões Posso dizer que foi das coisas que mais me impressionou, a maneira comovente como aquele quartel se despediu dos seus militares Foi arrepiante. (4)
Listagem dos mortos e feridos:
Mortos
2ª companhia
- Alferes Mil – Alcindo Vicente Neves
- Alferes Mil – António Azevedo Ferreira
** - 1º.Cabo Alfredo Coelho Lima, (mencionado por Fur.Mil.Correia da Silva, 2ª. Cª.Caç./Bat. Caç.4913/73.). Estava omisso nesta listagem do B.C. 4913
- Soldado Atirador – José Manuel da Silva
Feridos
1º sargento Inf. – Joaquim Dias Narciso
Furriel Miliciano – José Flávio de Jesus Almeida
Furriel Miliciano – Francisco José Palminha Azedo
Furriel Miliciano – José Carlos Simões das Neves
1º cabo mec. Auto – Egídio Paulo Correia Andrade
2ª Companhia
1º cabo atirador – Avelino Vieira Cabral
1º cabo escriturário – Manuel Luís Pereira
Soldado atirador – Manuel Jorge do Poço
Soldado atirador – Manuel Alberto Vieira Gonçalves
Soldado atirador – João Ribeiro Teixeira
Soldado Mecânico auto – Luís António Fernandes
Soldado atirador – Faustino Mateus Júnior
(nesta listagem constam 12 feridos e noutros locais consultados mencionam 14. No preâmbulo sobre o ataque, este Batalhão refere 13 feridos e o José Lopes idem)
Fontes consultadas:
* - informação de Correia José
(1) - Batalhão de Caçadores 4913
(2) - António Inácio Correia Nogueira (Tese e Anexos - Universidade Fernando Pessoa) in Capitães do Fim
Depoimentos
(3) - Antero Ferreira
(4) - Evaristo Rosa
Fotos:
- José Lopes
Depoimento de José Lopes - a foto onde eu estou na cadeira, não é no Caio mas sim no B.C.11 quando estávamos à espera de embarque. Foi a nossa única baixa. Foi naquela cadeira que ele (soldado) foi alvejado quando já não previamos nada disto.
O meu muito Obrigado a todos!
23.8.20
A guerra que passei...
Depois do 25 de abril de 1974, o IN intensificou a luta de guerrilha contra as tropas portuguesas destacadas no Enclave de Cabinda.
Saíamos em patrulha contra a vontade dos soldados que não as queriam fazer. A maior parte deles eram naturais desse enclave e queriam sair da tropa para regressarem às aldeias de que eram originários.
Mais uma patrulha ia sair do nosso quartel de Tando-Zinze. Ia eu, o Furriel Franco que comigo tinha vindo dos Comandos e os nossos grupos de combate. A saída era a pé até uma aldeia que distava três dias e noites de caminhada por caminhos quase intransitáveis., devido às fortes chuvadas que caíam e transformavam a picada num terreno de lama e muito mosquito.
Á saída do quartel a rebelião. Só iam se fossem de Unimog que designavamos por 'burros do mato'.
A ordem que tínhamos era a pé e a pé teria que ser.
O meu grupo lá se dispões a ir, mas o grupo do Franco estava irredutível. Eu conhecia bem o Franco, era um dos que mais me dava pois tínhamso sofrido as agruras juntos no 27º Curso de Comandos.
O que não esperava era pela reação dele. Devido ao treino que tínhamos tido nos Comandos, colocou a G3 em posição de rajada e com ela pela cintura, disparou contra os pés dos que se recusavam a fazer a patrulha. Remédio santo. Fizemos a patrulha mas sempre com receio (e não medo) de quando dormissemos em plena floresta do Maiombe fossemos atacados pelos nossos grupos.
A 9 de maio de 1974 no Belize, numa armadilha, morre um Furriel e vários soldados ficaram feridos.
Em Caio Guembo, no dia 30 de maio desse ano, o IN ataca o aquartelamento, provocando a morte de dois Alferes, um Furriel, um soldado, havendo ainda 14 feridos.
E era este o nosso estado de espírito em Cabinda. A qualquer momento podiamos ser atacados como estava previsto ser feito ao nosso quartel em Tando-Zinze.
foto: no nosso 'saloon' em Tando-Zinze:
Em cima : Restollho, eu e ?
Em baixo: Franco e Guedes
Saíamos em patrulha contra a vontade dos soldados que não as queriam fazer. A maior parte deles eram naturais desse enclave e queriam sair da tropa para regressarem às aldeias de que eram originários.
Mais uma patrulha ia sair do nosso quartel de Tando-Zinze. Ia eu, o Furriel Franco que comigo tinha vindo dos Comandos e os nossos grupos de combate. A saída era a pé até uma aldeia que distava três dias e noites de caminhada por caminhos quase intransitáveis., devido às fortes chuvadas que caíam e transformavam a picada num terreno de lama e muito mosquito.
Á saída do quartel a rebelião. Só iam se fossem de Unimog que designavamos por 'burros do mato'.
A ordem que tínhamos era a pé e a pé teria que ser.
O meu grupo lá se dispões a ir, mas o grupo do Franco estava irredutível. Eu conhecia bem o Franco, era um dos que mais me dava pois tínhamso sofrido as agruras juntos no 27º Curso de Comandos.
O que não esperava era pela reação dele. Devido ao treino que tínhamos tido nos Comandos, colocou a G3 em posição de rajada e com ela pela cintura, disparou contra os pés dos que se recusavam a fazer a patrulha. Remédio santo. Fizemos a patrulha mas sempre com receio (e não medo) de quando dormissemos em plena floresta do Maiombe fossemos atacados pelos nossos grupos.
A 9 de maio de 1974 no Belize, numa armadilha, morre um Furriel e vários soldados ficaram feridos.
Em Caio Guembo, no dia 30 de maio desse ano, o IN ataca o aquartelamento, provocando a morte de dois Alferes, um Furriel, um soldado, havendo ainda 14 feridos.
E era este o nosso estado de espírito em Cabinda. A qualquer momento podiamos ser atacados como estava previsto ser feito ao nosso quartel em Tando-Zinze.
foto: no nosso 'saloon' em Tando-Zinze:
Em cima : Restollho, eu e ?
Em baixo: Franco e Guedes
19.8.20
Amigos para sempre!
É na prisão e no hospital que se vêm os melhores amigos. Haja o que houver nunca os abandonam.
Mas há um outro sítio que quem como eu lá andou, nunca os esquecemos... É na guerra!
Ali, quando as balas silvam ao nosso redor e vemos um camarada em perigo, tudo se esquece, até o perigo de ser atingido por uma bala e vai-se ajudar esse amigo.
Quantos foram salvos pela ação de quem coloca o peito às balas para os defender.
Felizmente nunca tive um momento destes, mas sabíamos que podíamos contar uns com os outros se essa situação surgisse.
Acabada a guerra militar, seguiu-se uma guerra civil, onde milhares de pessoas foram estropiados e milhares obrigados a fugir levando só a roupa que tinham no corpo e, enfrentando o perigo, foram rumo à África do Sul.
Quem muito fala e lá não esteve, o que dizem resvala na couraça da minha indiferença e como disse um profeta: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (dizem)».
Este amigo ficou, além do que deixou para trás como muitos de nós, sem as lembranças de uma vida, as fotos.
Para ti amigo Joao Cruz, as fotos que de ti tenho e uma do Joaquim Quelhas, daqueles momentos que passamos em Tando-Zinze e cidade de Cabinda, nos longínquos anos 74/75. Uma delas, já no adeus ao nosso quartel, com os caixotes a serem preparados para a partida.
Uma camaradagem que não acaba e nunca acabará.
Estivemos juntos naquela floresta do Maiombe.
Cabinda oyé!
Mas há um outro sítio que quem como eu lá andou, nunca os esquecemos... É na guerra!
Ali, quando as balas silvam ao nosso redor e vemos um camarada em perigo, tudo se esquece, até o perigo de ser atingido por uma bala e vai-se ajudar esse amigo.
Quantos foram salvos pela ação de quem coloca o peito às balas para os defender.
Felizmente nunca tive um momento destes, mas sabíamos que podíamos contar uns com os outros se essa situação surgisse.
Acabada a guerra militar, seguiu-se uma guerra civil, onde milhares de pessoas foram estropiados e milhares obrigados a fugir levando só a roupa que tinham no corpo e, enfrentando o perigo, foram rumo à África do Sul.
Quem muito fala e lá não esteve, o que dizem resvala na couraça da minha indiferença e como disse um profeta: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (dizem)».
Este amigo ficou, além do que deixou para trás como muitos de nós, sem as lembranças de uma vida, as fotos.
Para ti amigo Joao Cruz, as fotos que de ti tenho e uma do Joaquim Quelhas, daqueles momentos que passamos em Tando-Zinze e cidade de Cabinda, nos longínquos anos 74/75. Uma delas, já no adeus ao nosso quartel, com os caixotes a serem preparados para a partida.
Uma camaradagem que não acaba e nunca acabará.
Estivemos juntos naquela floresta do Maiombe.
Cabinda oyé!
6.8.20
A Cura
Tando-Zinze - 1974
No corpo começou a aparecer várias chagas com pus. Tudo foi tentado pelos nossos enfermeiros mas não havia melhoras. A roupa estava sempre suja daquele líquido que saía da pele e lhe molhava o camuflado. Curiosamente a maior incidência era nas costas.
Um dia vamos até à aldeia de Tchinguinguili. Um autóctone repara naquelas chagas. Verifica e diz: meu furriel, você ao deitar pega em argila misture com um pouco de vinho branco e passe pelo corpo. Assim fizemos. Enquanto este nosso camarada estava de bruços, passávamos a mistura pelo corpo, o vinho evaporava e a argila ficava. Enfiava uma t-shirt e adormecia assim. Fizemos isto durante uma semana, e as chagas secaram.
Nunca mais teve esse problema.
Aqui está ele, sentado, comigo e um alferes, num quarto em Cabinda que alugamos depois de termos saído de Tando-Zinze em dezembro de 1974, o furriel Cruz.
No corpo começou a aparecer várias chagas com pus. Tudo foi tentado pelos nossos enfermeiros mas não havia melhoras. A roupa estava sempre suja daquele líquido que saía da pele e lhe molhava o camuflado. Curiosamente a maior incidência era nas costas.
Um dia vamos até à aldeia de Tchinguinguili. Um autóctone repara naquelas chagas. Verifica e diz: meu furriel, você ao deitar pega em argila misture com um pouco de vinho branco e passe pelo corpo. Assim fizemos. Enquanto este nosso camarada estava de bruços, passávamos a mistura pelo corpo, o vinho evaporava e a argila ficava. Enfiava uma t-shirt e adormecia assim. Fizemos isto durante uma semana, e as chagas secaram.
Nunca mais teve esse problema.
Aqui está ele, sentado, comigo e um alferes, num quarto em Cabinda que alugamos depois de termos saído de Tando-Zinze em dezembro de 1974, o furriel Cruz.
2.8.20
Maiombe - o Paraíso na terra
Em Cabinda, o 'Bar Girassol' era ponto de encontro de todos nós. Perto, o mar. A areia era 'negra' devido às fortes correntes marítimas vindas do sul que arrastam o aluvião da foz do Rio Zaire. Ao largo, as plataformas bombeavam o 'ouro negro' que saía das profundezas do oceano.
O calor da noite era propício ao calor dos corpos e, naquelas areias, muito amor se fez ao som das ondas que, mansamente, beijavam a areia com doçura.
Cabinda era uma cidade pequena mas muito arejada. Não faltavam lá recantos, onde a tropa se 'perdia' em noites de bebedeiras e prazer. Onde há tropa, há sempre um séquito de meretrizes que os acompanham, já no tempo do Imperio Romano assim era.
As noites quentes e húmidas, eram compensadas com o barulho das ventoinhas que traziam um pouco de fresco ao corpo que dormindo como tinha nascido, o suor escorria. De manhã acordava-se e não se sabia como, com o lençol até ao pescoço.
Depois do MVL (Movimento Viaturas Logístico) que fazia o abastecimento ao quartel, era o regresso à floresta do Maiombe.
A beleza luxuriante daquela floresta era de cortar a respiração. O seu despertar com a névoa subindo aos primeiros raios de sol, criava um misto de admiração e surpresa, como o cosmos tinha feito do 'Caos' o que de mais de belo o nosso planeta tem, as suas florestas. Ouviam-se os primeiros pássaros no despertar daquele imenso 'mar' vegetal.
No rio que percorria a aldeia, embora fossem as mulheres que mais ali trabalhavam nas pequenas roças que tinham, velhos pescadores tentavam pescar. Tudo era feito nas calmas, no silêncio dos dias, onde o astro-rei é que mandava no tempo.
A floresta era palco de muitos animais exóticos, o papagaio era rei e senhor dos ares.
As suas águas cristalinas, os recantos onde as belas cabindas se banhavam em cascatas com reflexos do sol, os seus risos cristalinos, o debruçar da vegetação sobre as suas margens, tornavam todo aquele cenário um local idílico, onde o rio, a floresta e as suas gentes, faziam daquele lugar o último paraíso da terra.
foto:: quadro da pintora Josefa Moura intitulado 'Cabinda'
O calor da noite era propício ao calor dos corpos e, naquelas areias, muito amor se fez ao som das ondas que, mansamente, beijavam a areia com doçura.
Cabinda era uma cidade pequena mas muito arejada. Não faltavam lá recantos, onde a tropa se 'perdia' em noites de bebedeiras e prazer. Onde há tropa, há sempre um séquito de meretrizes que os acompanham, já no tempo do Imperio Romano assim era.
As noites quentes e húmidas, eram compensadas com o barulho das ventoinhas que traziam um pouco de fresco ao corpo que dormindo como tinha nascido, o suor escorria. De manhã acordava-se e não se sabia como, com o lençol até ao pescoço.
Depois do MVL (Movimento Viaturas Logístico) que fazia o abastecimento ao quartel, era o regresso à floresta do Maiombe.
A beleza luxuriante daquela floresta era de cortar a respiração. O seu despertar com a névoa subindo aos primeiros raios de sol, criava um misto de admiração e surpresa, como o cosmos tinha feito do 'Caos' o que de mais de belo o nosso planeta tem, as suas florestas. Ouviam-se os primeiros pássaros no despertar daquele imenso 'mar' vegetal.
No rio que percorria a aldeia, embora fossem as mulheres que mais ali trabalhavam nas pequenas roças que tinham, velhos pescadores tentavam pescar. Tudo era feito nas calmas, no silêncio dos dias, onde o astro-rei é que mandava no tempo.
A floresta era palco de muitos animais exóticos, o papagaio era rei e senhor dos ares.
As suas águas cristalinas, os recantos onde as belas cabindas se banhavam em cascatas com reflexos do sol, os seus risos cristalinos, o debruçar da vegetação sobre as suas margens, tornavam todo aquele cenário um local idílico, onde o rio, a floresta e as suas gentes, faziam daquele lugar o último paraíso da terra.
foto:: quadro da pintora Josefa Moura intitulado 'Cabinda'
20.1.20
Curso de minas e armadilhas
28 de fevereiro de 1974
Enquanto escrevia para Luanda dizendo que tinha ido a Cabinda levando um grupo de combate e que partiria no dia seguinte para Miconge para onde fora destacado (Miconge era na época, um local muito flagelado pela artilharia inimiga), voava para Luanda, onde iria tirar o curso de minas e armadilhas.
Luanda, minha cidade é linda, é de bem querer, a minha cidade é linda, hei-de amá-la até morrer. Na altura Luanda seria o meu cemitério. Os ventos da história mudaram o curso dos acontecimentos…
Nesse curso aprendi tudo o que era minas e armadilhas. Efeitos e consequências. Como lidar no mato com possíveis fios atravessando a picada, o sentir por baixo do pé o click caraterístico de ter acionado uma mina… e no fim do curso teríamos que apresentar uma armadilha da nossa competência. A minha armadilha era uma caixa de um dentífrico onde o dentífrico seria um explosivo ligado por fios à tampa da caixa. Mal abria a caixa, os fios faziam contacto e detonava o explosivo. Hoje parece cruel, mas na época era a guerra e não se pode estar agora com moralismos bacocos, ou eram eles ou nós. "A Guerra é a Guerra" como bem diz Fausto Bordalo Dias.
Findo o curso fiquei nos Adidos à espera de embarque para Cabinda. Um dia ao apresentar o grupo ao Comandante dei um passo à Comando que até o Comandante que estava perto de mim teve que recuar. Chegou-se ao pé do meu ouvido e perguntou: «Nosso Furriel, você esteve numa tropa especial?» - Sim meu Comandante, estive nos Comandos - «Para a próxima dê o passo à tropa normal que aqui não há Comandos». Até suei.
Andei por ali umas semanas e admirava muito não ser chamado para embarcar para Cabinda, mas como estava na minha cidade, quanto mais tarde melhor.
Um primeiro-sargento de tanto me ver, perguntou-me a razão de lá estar há tanto tempo. Expliquei a razão e ele perguntou-me se tinha entregado a guia de marcha. A guia de marcha? Não - respondi eu. Pois tinha-me esquecido de entregar a guia e no dia 20 de março de 1974, apanho o avião para Cabinda, de volta ao Maiombe, a Tando Zinze.
foto sargento Maurício:
Eu, (?) e Pinto, no quartel de Tando-Zinze.
Enquanto escrevia para Luanda dizendo que tinha ido a Cabinda levando um grupo de combate e que partiria no dia seguinte para Miconge para onde fora destacado (Miconge era na época, um local muito flagelado pela artilharia inimiga), voava para Luanda, onde iria tirar o curso de minas e armadilhas.
Luanda, minha cidade é linda, é de bem querer, a minha cidade é linda, hei-de amá-la até morrer. Na altura Luanda seria o meu cemitério. Os ventos da história mudaram o curso dos acontecimentos…
Nesse curso aprendi tudo o que era minas e armadilhas. Efeitos e consequências. Como lidar no mato com possíveis fios atravessando a picada, o sentir por baixo do pé o click caraterístico de ter acionado uma mina… e no fim do curso teríamos que apresentar uma armadilha da nossa competência. A minha armadilha era uma caixa de um dentífrico onde o dentífrico seria um explosivo ligado por fios à tampa da caixa. Mal abria a caixa, os fios faziam contacto e detonava o explosivo. Hoje parece cruel, mas na época era a guerra e não se pode estar agora com moralismos bacocos, ou eram eles ou nós. "A Guerra é a Guerra" como bem diz Fausto Bordalo Dias.
Findo o curso fiquei nos Adidos à espera de embarque para Cabinda. Um dia ao apresentar o grupo ao Comandante dei um passo à Comando que até o Comandante que estava perto de mim teve que recuar. Chegou-se ao pé do meu ouvido e perguntou: «Nosso Furriel, você esteve numa tropa especial?» - Sim meu Comandante, estive nos Comandos - «Para a próxima dê o passo à tropa normal que aqui não há Comandos». Até suei.
Andei por ali umas semanas e admirava muito não ser chamado para embarcar para Cabinda, mas como estava na minha cidade, quanto mais tarde melhor.
Um primeiro-sargento de tanto me ver, perguntou-me a razão de lá estar há tanto tempo. Expliquei a razão e ele perguntou-me se tinha entregado a guia de marcha. A guia de marcha? Não - respondi eu. Pois tinha-me esquecido de entregar a guia e no dia 20 de março de 1974, apanho o avião para Cabinda, de volta ao Maiombe, a Tando Zinze.
foto sargento Maurício:
Eu, (?) e Pinto, no quartel de Tando-Zinze.
15.1.20
A Última Noite
Passeava absorto nos seus pensamentos. Ia muitas vezes, sozinho, por aquele trilho de terra vermelha. Ladeando o caminho, de cor clara, as limbas, árvores de grande porte que podem atingir a altura de 50 metros, predominavam. Os cheiros da floresta tropical, os sons da fauna que mal se via tal o emaranhado de cipós, de ramos entrelaçados que impediam a sua visualização sem esforço, eram uma bênção da natureza. Estava no Maiombe.
O trilho ia dar ao rio que corria paralelo à aldeia de Tchinguinguili. Senta-se e vê-a. Compenetrada na sua tarefa, não se apercebe que estava a ser observada. Lavava ali a roupa naquele rio de água cálida e cristalina que, em certos sítios, caía em cascata, local onde as nativas tomavam banho.
O seu corpo luzidio, estava seminu. O cabelo arranjado, um olhar aberto, os dentes alvos, um corpo de gazela. Cantarolava uma cantiga em ibinda, língua natural do povo de Cabinda.
Ela, de repente, sente que está a ser observada. Olham olhos nos olhos e foi como se ali, algo tivesse ligado os olhares. Houve uma empatia imediata entre os dois.
Pegando na trouxa de roupa, dirige-se para a povoação. Ele, fica ainda ali por momentos, como se aquela aparição tivesse sido um cometa que tivesse passado e deixasse rasto da sua luz.
Volta a vê-la tempos depois. O coração dele transbordava de alegria por a ver de novo. Não sabia quem era, o seu nome, se casada, se solteira. Viria a saber depois. Era casada, mas o marido há muito que não a procurava. Passava os dias bêbado com o maruvo (bebida alcoólica resultante da seiva das palmeiras), na companhia dos amigos.
E iam-se encontrando, aqui e ali, até que um dia tiveram mais um tempo juntos. Num local idílico, ali se beijaram. O mundo era só deles, nada mais existia.
O tempo da comissão estava a acabar. Em breve ele voltaria para a sua unidade e regressaria à procedência.
Resolveram encontrar-se numa noite perto do local onde se tinham visto pela primeira vez. O homem com a bebedeira dormia até tarde, nem notaria a falta dela.
A noite estava linda. Ela, vestida com o traje típico, com a esteira, aguardava-o. Ele, de camuflado, levava um cobertor que as noites no Maiombe são húmidas e frescas.
Deitaram-se sob a luz das estrelas. Amaram-se como se não existisse amanhã. Sem preconceitos ou tabus, o amor pelo amor. Adormeceram exaustos.
O sol vai penetrando nas copas das árvores e desperta-os. A mão dele estava sobre o peito daquela mulher. Os olhos dela pareciam estrelas que tinham caído do céu e ali tinham ficado. Foram até ao rio. Banharam-se, mas o tempo urgia. Vestiram-se. Ela com a mão faz um débil movimento, ele, com o olhar, diz-lhe … Adeus!
Este conto é ficção. Qualquer semelhança com factos ou situações da vida real, é mera coincidência.
O trilho ia dar ao rio que corria paralelo à aldeia de Tchinguinguili. Senta-se e vê-a. Compenetrada na sua tarefa, não se apercebe que estava a ser observada. Lavava ali a roupa naquele rio de água cálida e cristalina que, em certos sítios, caía em cascata, local onde as nativas tomavam banho.
O seu corpo luzidio, estava seminu. O cabelo arranjado, um olhar aberto, os dentes alvos, um corpo de gazela. Cantarolava uma cantiga em ibinda, língua natural do povo de Cabinda.
Ela, de repente, sente que está a ser observada. Olham olhos nos olhos e foi como se ali, algo tivesse ligado os olhares. Houve uma empatia imediata entre os dois.
Pegando na trouxa de roupa, dirige-se para a povoação. Ele, fica ainda ali por momentos, como se aquela aparição tivesse sido um cometa que tivesse passado e deixasse rasto da sua luz.
Volta a vê-la tempos depois. O coração dele transbordava de alegria por a ver de novo. Não sabia quem era, o seu nome, se casada, se solteira. Viria a saber depois. Era casada, mas o marido há muito que não a procurava. Passava os dias bêbado com o maruvo (bebida alcoólica resultante da seiva das palmeiras), na companhia dos amigos.
E iam-se encontrando, aqui e ali, até que um dia tiveram mais um tempo juntos. Num local idílico, ali se beijaram. O mundo era só deles, nada mais existia.
O tempo da comissão estava a acabar. Em breve ele voltaria para a sua unidade e regressaria à procedência.
Resolveram encontrar-se numa noite perto do local onde se tinham visto pela primeira vez. O homem com a bebedeira dormia até tarde, nem notaria a falta dela.
A noite estava linda. Ela, vestida com o traje típico, com a esteira, aguardava-o. Ele, de camuflado, levava um cobertor que as noites no Maiombe são húmidas e frescas.
Deitaram-se sob a luz das estrelas. Amaram-se como se não existisse amanhã. Sem preconceitos ou tabus, o amor pelo amor. Adormeceram exaustos.
O sol vai penetrando nas copas das árvores e desperta-os. A mão dele estava sobre o peito daquela mulher. Os olhos dela pareciam estrelas que tinham caído do céu e ali tinham ficado. Foram até ao rio. Banharam-se, mas o tempo urgia. Vestiram-se. Ela com a mão faz um débil movimento, ele, com o olhar, diz-lhe … Adeus!
Este conto é ficção. Qualquer semelhança com factos ou situações da vida real, é mera coincidência.
14.10.19
Parada dos Comandos - Sintra
Hoje em Sintra havia uma parada de boas-vindas aos Comandos que regressaram a Portugal em setembro, depois de cumprirem a missão de seis meses das Nações Unidas na República Centro-Africana (RCA).
Tive a oportunidade de falar com diversos Comandos presentes não na cerimónia, mas que assistiam a esta parada. Relembrei os 'velhos' tempos que estive no 27º Curso dos Comandos no Grafanil em Luanda e ficaram a saber que a boina que agora têm que é vermelha foi mudada de castanha para essa cor em 1974. Antes disso a boina era igual para todo o exército.
Depois sentei-me num banco numa exposição que lá está e lembrei-me de um ditador que existiu na Republica Centro Africana:Jean-Bédel Bokassa, também conhecido como Imperador Bokassa I (praticava o canibalismo), que num golpe de estado em 1966, tomou o poder na RCA, tornando-se presidente e depois imperador como o seu ídolo Napoleão Bonaparte.
Em 1979 mandou prender centenas de jovens estudantes quando estes se recusaram a comprar uniformes escolares feitos na empresa chefiada por uma das suas esposas. É reportado que Bokassa pessoalmente supervisionou o assassinato de pelo menos 100 estudantes pelas mãos da sua guarda imperial.
Mortes extrajudiciais, torturas, estupros e mutilações feitas por suas tropas eram o pão nosso de cada dia.
Foi deposto em setembro de 1979 e assim acabaram treze anos de terror.
Bokassa teve 17 esposas e mais de 50 filhos. Morreu vítima de ataque cardíaco.
Mas na RCA, como na maior parte do continente africano (lembrei-me agora de outro ditador - Idi Amin), a 'paz' está na ponta das espingardas. Por isso esta companhia de Comandos foi substituída por uma outra mas de paraquedistas, que irão cumprir mais seis meses de missão por estas paragens.
Sentei-me, mas como Marius o Romano nunca teve jeito para imperador, ali ficou o lugar à espera que outro ali se sentasse e se sentisse imperador... do sítio do pica pau amarelo.
"Mama Sumae" para todos os Comandos.
Tive a oportunidade de falar com diversos Comandos presentes não na cerimónia, mas que assistiam a esta parada. Relembrei os 'velhos' tempos que estive no 27º Curso dos Comandos no Grafanil em Luanda e ficaram a saber que a boina que agora têm que é vermelha foi mudada de castanha para essa cor em 1974. Antes disso a boina era igual para todo o exército.
Depois sentei-me num banco numa exposição que lá está e lembrei-me de um ditador que existiu na Republica Centro Africana:Jean-Bédel Bokassa, também conhecido como Imperador Bokassa I (praticava o canibalismo), que num golpe de estado em 1966, tomou o poder na RCA, tornando-se presidente e depois imperador como o seu ídolo Napoleão Bonaparte.
Em 1979 mandou prender centenas de jovens estudantes quando estes se recusaram a comprar uniformes escolares feitos na empresa chefiada por uma das suas esposas. É reportado que Bokassa pessoalmente supervisionou o assassinato de pelo menos 100 estudantes pelas mãos da sua guarda imperial.
Mortes extrajudiciais, torturas, estupros e mutilações feitas por suas tropas eram o pão nosso de cada dia.
Foi deposto em setembro de 1979 e assim acabaram treze anos de terror.
Bokassa teve 17 esposas e mais de 50 filhos. Morreu vítima de ataque cardíaco.
Mas na RCA, como na maior parte do continente africano (lembrei-me agora de outro ditador - Idi Amin), a 'paz' está na ponta das espingardas. Por isso esta companhia de Comandos foi substituída por uma outra mas de paraquedistas, que irão cumprir mais seis meses de missão por estas paragens.
Sentei-me, mas como Marius o Romano nunca teve jeito para imperador, ali ficou o lugar à espera que outro ali se sentasse e se sentisse imperador... do sítio do pica pau amarelo.
"Mama Sumae" para todos os Comandos.
21.8.19
Museu dos Combatentes - Forte do Bom Sucesso
O Monumento - Objectivos (este é um deles)
1 - Cumprir um acto de justiça, de homenagem àqueles que, como Combatentes, serviram Portugal no ex-Ultramar português.
Sabia da sua existência, mas não sabia onde estava situado.
Na minha demanda por Belém, vi uma placa a assinalar o Museu. Tinha que o ver.
Fui confrontado com um belíssimo pórtico. Nas paredes do Museu, milhares de nomes dos que tinham tombado na guerra do Ultramar. Percorri os anos; 1963...1964... 1974. Era este ano que procurava.
Ali estava o nome dele na lista, Hélder Santos Lima - Furriel.
Fiquei comovido, as lágrimas assomaram, O Furriel Lima tinha sido meu instrutor nos Comandos. Morrera em Cabinda em 16Jun74 na zona de Caio Guembo, na deflagração de uma mina antipessoal. Deixara um filho ainda bebé.
Sentei-me e ali estive algum tempo recordando-o:
"Um dia todos em círculo, arma nas mãos com os braços estendidos, quem ganhasse teria o fim-de-semana garantido. E a arma que pesava cerca de 5kg com o carregador municiado começou a pesar “toneladas”. Um a um iam desistindo. Fiquei eu mais outro camarada. Os dois últimos, um iria a casa. O corpo todo torcido para trás, a tentar que os braços não descaíssem e o Furriel Lima talvez por eu ser Lima também diz-me: «Lima, tens que vencer».
E o meu camarada descai por fim os braços. Tinha ganho."
Levantei-me e, ainda com os olhos emudecidos, fui visitar o museu.
PS - Aqui não estão todas as fotos que tirei. É só uma pequena amostra. Este museu, para quem esteve a combater no Ultramar, é digno de se ver.
1 - Cumprir um acto de justiça, de homenagem àqueles que, como Combatentes, serviram Portugal no ex-Ultramar português.
Sabia da sua existência, mas não sabia onde estava situado.
Na minha demanda por Belém, vi uma placa a assinalar o Museu. Tinha que o ver.
Fui confrontado com um belíssimo pórtico. Nas paredes do Museu, milhares de nomes dos que tinham tombado na guerra do Ultramar. Percorri os anos; 1963...1964... 1974. Era este ano que procurava.
Ali estava o nome dele na lista, Hélder Santos Lima - Furriel.
Fiquei comovido, as lágrimas assomaram, O Furriel Lima tinha sido meu instrutor nos Comandos. Morrera em Cabinda em 16Jun74 na zona de Caio Guembo, na deflagração de uma mina antipessoal. Deixara um filho ainda bebé.
Sentei-me e ali estive algum tempo recordando-o:
"Um dia todos em círculo, arma nas mãos com os braços estendidos, quem ganhasse teria o fim-de-semana garantido. E a arma que pesava cerca de 5kg com o carregador municiado começou a pesar “toneladas”. Um a um iam desistindo. Fiquei eu mais outro camarada. Os dois últimos, um iria a casa. O corpo todo torcido para trás, a tentar que os braços não descaíssem e o Furriel Lima talvez por eu ser Lima também diz-me: «Lima, tens que vencer».
E o meu camarada descai por fim os braços. Tinha ganho."
Levantei-me e, ainda com os olhos emudecidos, fui visitar o museu.
PS - Aqui não estão todas as fotos que tirei. É só uma pequena amostra. Este museu, para quem esteve a combater no Ultramar, é digno de se ver.
2.8.19
O paludismo
Na recruta, apanhávamos uma injeção que designávamos por 'injeção cavalar' (a vacina era injetada nas costas, junto à omoplata) que, por princípio, nos tornava imunes às doenças tropicais. Tomei-a na EAMA mas, como se veio a verificar, a injeção não era infalível. Uns dias no mato, com patrulhas a pé de cinco dias, a beber água dos charcos, e sabíamos bem que no interior do Maiombe os charcos ficavam ali semanas, propícios para as larvas dos mosquitos, e com tanta picadela, há sempre uma altura que o corpo cede.
Pouco tempo estava em Tando Zinze quando comecei a ter febre e, ao tomar banho na nossa messe de sargentos, o corpo começa a tremer. Sem saber o que era, tomo banho rapidamente e lençóis comigo. Era dia 3 de janeiro de 1974. Os suores continuavam e como com a idade de 22 anos não há andropausa, só podia ser uma coisa... Paludismo.
Era a 2ª vez que tinha. A primeira tinha sido como civil e estive uma semana de cama em Luanda (tive uma terceira vez que quase foi necessário chamar o helicóptero para ir para o Hospital de Cabinda, pois o meu estado de saúde estava muito agravado. Felizmente recuperei). O enfermeiro lá me deu uma injeção e 'violou-me' com dois supositórios. Nessa noite nem comi e foi uma noite terrível.
Estava eu na minha caminha (parece a guerra do Solnado), quando me acordaram pois tinha que ir no MVL para Cabinda onde iria fazer uma pequena cirurgia, devido a uma unha encravada dos tais jogos de bola. Como era habitual, nesse dia chovia e de que maneira. Mesmo com o impermeável a chuva entrou-me pelo corpo e se doente estava mais doente fiquei. Só que a cirurgia era no dia seguinte (sábado). Fico em casa de um conhecido onde tinha a minha roupa civil e, nessa tarde, deu-me para ir passear por Cabinda.
Volta o corpo a tremer, entro num bar e peço um copo de leite. O barman olha para mim e aquela cabeça deve ter-me chamado de 'copinho de leite'. "Onde já se viu um mancebo a pedir um copo de leite?! Uma cerveja sim, bem fresquinha... agora um copo de leite? Bah... já não há homens como dantes!"
Mais valia ter pedido a cerveja. Fico agoniado, quase que caio, os ouvidos a zumbir e não era das moscas, e uma névoa se forma nos meus olhos. Sento-me, cabeça entre as pernas e lá recuperei. Pago e cama comigo. Doía-me todo o corpo, febre altíssima. Tomo dois comprimidos, mas dormir nada.
No dia seguinte fico sem unha, dedo entrapado, mas mesmo a pé coxinho a cidade era para ser visitada pois terça-feira iria de novo para o mato e havia que aproveitar os dias.
Coisas do destino, nessa noite fui ao cinema Chiloango ver o filme "Hospital". Tal como Maomé, como não fui para o Hospital, veio o "Hospital" até mim.
Na manhã do dia seguinte, vou ver a chegada do Governador Fernando Santos e Castro que iria inaugurar as novas áreas operacionais do aeroporto e do porto da cidade.
Foi com um calor terrível que voltei para o aquartelamento em Tando Zinze, onde mais patrulhas de dias no mato, me esperavam.
foto: aqui na 3ª vez que estive com paludismo. Estava no início da doença que quase me levava de 'charola' para Cabinda.
autor: 2º sargento Maurício
Pouco tempo estava em Tando Zinze quando comecei a ter febre e, ao tomar banho na nossa messe de sargentos, o corpo começa a tremer. Sem saber o que era, tomo banho rapidamente e lençóis comigo. Era dia 3 de janeiro de 1974. Os suores continuavam e como com a idade de 22 anos não há andropausa, só podia ser uma coisa... Paludismo.
Era a 2ª vez que tinha. A primeira tinha sido como civil e estive uma semana de cama em Luanda (tive uma terceira vez que quase foi necessário chamar o helicóptero para ir para o Hospital de Cabinda, pois o meu estado de saúde estava muito agravado. Felizmente recuperei). O enfermeiro lá me deu uma injeção e 'violou-me' com dois supositórios. Nessa noite nem comi e foi uma noite terrível.
Estava eu na minha caminha (parece a guerra do Solnado), quando me acordaram pois tinha que ir no MVL para Cabinda onde iria fazer uma pequena cirurgia, devido a uma unha encravada dos tais jogos de bola. Como era habitual, nesse dia chovia e de que maneira. Mesmo com o impermeável a chuva entrou-me pelo corpo e se doente estava mais doente fiquei. Só que a cirurgia era no dia seguinte (sábado). Fico em casa de um conhecido onde tinha a minha roupa civil e, nessa tarde, deu-me para ir passear por Cabinda.
Volta o corpo a tremer, entro num bar e peço um copo de leite. O barman olha para mim e aquela cabeça deve ter-me chamado de 'copinho de leite'. "Onde já se viu um mancebo a pedir um copo de leite?! Uma cerveja sim, bem fresquinha... agora um copo de leite? Bah... já não há homens como dantes!"
Mais valia ter pedido a cerveja. Fico agoniado, quase que caio, os ouvidos a zumbir e não era das moscas, e uma névoa se forma nos meus olhos. Sento-me, cabeça entre as pernas e lá recuperei. Pago e cama comigo. Doía-me todo o corpo, febre altíssima. Tomo dois comprimidos, mas dormir nada.
No dia seguinte fico sem unha, dedo entrapado, mas mesmo a pé coxinho a cidade era para ser visitada pois terça-feira iria de novo para o mato e havia que aproveitar os dias.
Coisas do destino, nessa noite fui ao cinema Chiloango ver o filme "Hospital". Tal como Maomé, como não fui para o Hospital, veio o "Hospital" até mim.
Na manhã do dia seguinte, vou ver a chegada do Governador Fernando Santos e Castro que iria inaugurar as novas áreas operacionais do aeroporto e do porto da cidade.
Foi com um calor terrível que voltei para o aquartelamento em Tando Zinze, onde mais patrulhas de dias no mato, me esperavam.
foto: aqui na 3ª vez que estive com paludismo. Estava no início da doença que quase me levava de 'charola' para Cabinda.
autor: 2º sargento Maurício
31.7.19
A caminho de Tando Zinze
12 de dezembro de 1973
As chamas dos poços de petróleo no mar, iluminavam a cidade quando cheguei. A areia da praia era negra devido ao derrame que sempre havia desses poços. Cidade pequena, muito pacata, depois de certa hora não se via vivalma. Nesse dia fui até ao cinema Chiloango ver o filme "A última cruzada" (não confundir com "a Última cruzada" com o Indiana Jones de 1989). Pouco mais de uma dúzia de pessoas assistiam ao filme.
Duas da manhã. Enquanto me desloco para os meus aposentes no B.Caç.11, os camaradas que tinham vindo comigo na lancha "Alabarda", vão deambulando pela cidade em busca do calor da noite.
Dia 13, quinta-feira. Em MVL (Movimento Viaturas Logístico) vejo pela primeira vez, as árvores altivas, de grande porte, da floresta do Maiombe. Devido a fatores climáticos que a floresta provoca, a chuva era uma constante. Durante quatro dias choveu sempre. Tando Zinze era o quartel a que estava destinado a cumprir a minha comissão. Neste lugar ermo, com a aldeia Tchinguinguili por perto onde as mulheres trajavam os famosos panos de Cabinda, iria ficar durante um ano e alguns meses.
Enquanto não comecei a fazer patrulhas e numa de habituação ao novo local e aos camaradas, o jogar às cartas, ao dominó e à bola, era uma forma de passar o tempo, pois o que lá tínhamos a mais era tempo. Nunca tive um calendário. Se o tivesse iria passar o tempo a olhar para os dias e o importante ali, era esquecer o tempo.
foto: jogando dominó na nossa messe de sargentos
autor: 2º sargento Maurício
As chamas dos poços de petróleo no mar, iluminavam a cidade quando cheguei. A areia da praia era negra devido ao derrame que sempre havia desses poços. Cidade pequena, muito pacata, depois de certa hora não se via vivalma. Nesse dia fui até ao cinema Chiloango ver o filme "A última cruzada" (não confundir com "a Última cruzada" com o Indiana Jones de 1989). Pouco mais de uma dúzia de pessoas assistiam ao filme.
Duas da manhã. Enquanto me desloco para os meus aposentes no B.Caç.11, os camaradas que tinham vindo comigo na lancha "Alabarda", vão deambulando pela cidade em busca do calor da noite.
Dia 13, quinta-feira. Em MVL (Movimento Viaturas Logístico) vejo pela primeira vez, as árvores altivas, de grande porte, da floresta do Maiombe. Devido a fatores climáticos que a floresta provoca, a chuva era uma constante. Durante quatro dias choveu sempre. Tando Zinze era o quartel a que estava destinado a cumprir a minha comissão. Neste lugar ermo, com a aldeia Tchinguinguili por perto onde as mulheres trajavam os famosos panos de Cabinda, iria ficar durante um ano e alguns meses.
Enquanto não comecei a fazer patrulhas e numa de habituação ao novo local e aos camaradas, o jogar às cartas, ao dominó e à bola, era uma forma de passar o tempo, pois o que lá tínhamos a mais era tempo. Nunca tive um calendário. Se o tivesse iria passar o tempo a olhar para os dias e o importante ali, era esquecer o tempo.
foto: jogando dominó na nossa messe de sargentos
autor: 2º sargento Maurício
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